De que nos fala o medo?

Crónicas 29 julho 2026  •  Tempo de Leitura: 2

O medo fala-nos sempre de futuro. Quando nos falta a capacidade de viver no presente, surge o medo.

 

O medo fala-nos de possibilidades que podem nunca vir a concretizar-se. Mas enquanto surgem e desfilam na nossa tela mental, retiram-nos do centro. Transportam-nos para um lugar de vulnerabilidade quase infantil e desprotegido.

 

O que será que nos ensina, então, o medo? Como podemos encontrar estratégias para o fintar e para o sentar num lugar que nos afete um pouco menos?

 

O medo ensina-nos a sobreviver. Protege-nos. Está ali como um guarda-costas empenhado e comprometido. Observa tudo e todos e envia-nos mensagens premeditadas e antecipadas para nos impedir de sofrer. Tem boas intenções, pelo menos! O problema é que quando o faz em excesso, tornando-se um guarda-costas demasiado focado em nós e no que fazemos, torna-se sufocante. Deixa de ser um protetor e passa a ser quase um agressor. É aqui que precisamos de entrar com medidas mais drásticas.

 

Quando o medo ocupa todo o nosso espaço interno, precisamos de tentar encontrar gavetas que nos ajudem a respirar. A ideia não será eliminar o medo, de todo. Mas dizer-lhe que, de momento, estamos bem. Estamos seguros e protegidos. Não há perigo. E se houver, nós somos adultos e crescidos e vamos conseguir resolver o que vier. Fica um alívio, não fica?

 

Colocar a mão no coração, fechar os olhos e dizer ao medo:

Está tudo bem. Eu sei que me queres proteger e guardar de todo o mal. Mas nem tu, nem ninguém o pode fazer. Por muito que gostássemos.

 

Tenho entendido os (meus) medos como uma prisão. Uma jaula que se ergue à volta de tudo e que deixa pouco espaço para respirar. Mas já compreendi que tudo o que queremos rejeitar em nós ganha força. E o mesmo acontece com o medo se eu lhe disser que não o quero aqui.

 

Num mundo em que todos parecem tão seguros de si em todos os aspetos, parece absurdo falar de medo e de vulnerabilidade. Mas existem. Dentro de todos os que parecem imparáveis e perfeitos.

 

Que os nossos medos encontrem um lugar ao sol para nos dar descanso e que o mar nos traga a presença e a motivação para viver apenas um dia de cada vez.

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Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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