Oração ao que fica por dizer…

Crónicas 16 junho 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Que saibamos encontrar formas de comunicar o que nos pesa.

 

Que não deixemos cristalizar a dor debaixo da nossa pele.

 

Que não naturalizemos o não falar. O não dizer. O guardar para nós.

 

Que as nossas palavras sejam mais vezes penas do que setas.

 

Que as nossas atitudes revelem a bondade do nosso coração, mas que isso não seja confundido com permissividade.

 

Que as palavras saiam depois de serem pensadas e rezadas. Que sejam eco nosso, mas nunca (simplesmente) reação em modo fogo posto.

 

Que possamos ser quem somos, ainda que os outros possam não gostar. Ou até julgar.

 

Que nos sobre empatia, mesmo quando os outros nos devolverem arrogância ou artilharia pesada.

 

Que a nossa assertividade não se confunda com agressividade.

 

Que a comunicação menos violenta seja um modo de vida. Uma aprendizagem que fique e que se torne forma de ser e de estar.

 

Que a nossa alma seja livre quando decidir falar ou expressar-se.

 

Que a nossa voz tenha asas para voar quando decidir ir contra o que todos pensam.

 

Que os nossos ouvidos filtrem o bom, apenas. E que o coração deixe cair o que foi menos simpático ou até doloroso.

 

Que as nossas palavras sejam colo e pão para quem vive sozinho ou com fome de amor e de companhia.

 

Que o que somos atravesse os outros de uma forma delicada, gentil e corajosa.

 

Que a nossa verdade seja sempre maior que a verdade que o mundo nos quer impingir.

 

O que fica por dizer pode transformar-se em pedra pesada dentro do coração.

 

Que não fique nada por dizer. E que o que for dito seja dito com amor.

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Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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