Ainda sabemos ouvir-nos?
Tenho notado que cada vez é mais difícil encontrar pessoas que estejam, de facto, disponíveis para (nos) ouvir.
Há uma tendência generalizada para interromper quem fala, para contar a sua própria versão dos factos, para partilhar algo pessoal no meio da partilha já iniciada por outro alguém. Observo que, tantas vezes, a pessoa que iniciou uma conversa ou um diálogo é completamente trucidada pela necessidade alheia de voltar as atenções para si.
Quando foi que deixámos de conseguir ouvir alguém falar até ao fim? Sem necessidade de dar opiniões, de rematar com inúmeros, “mas eu” ou “eu também”. Sem querer ultrapassar a voz do outro como se esta não tivesse qualquer valor ou significasse menos.
Ouvir está em vias de extinção. A maioria das pessoas prefere falar. Voltar os holofotes para si e cansar o outro com as suas preocupações e os seus problemas.
Conversar também parece ter os dias contados. As conversas tornaram-se concursos e competições: “a minha história pessoal vale mais que a tua”.
Parece algo tão óbvio: ouvir quando alguém fala. Estar presente para o que o outro nos diz. Sem querer acrescentar, dar pareceres, disparar julgamentos ou pessoalizar. Ouvir e sentir as entrelinhas da voz do outro. Aceitá-las. Oferecer silêncio e um olhar atento, apenas.
É possível ouvir sem falar. Ouvir sem interromper. Ouvir sem contar a sua própria história parecida ou igual. Mas para isso acontecer é preciso que quem ouve saia um pouco de si. Recentre as suas prioridades. Guarde para outro momento uma partilha pessoal.
Parece tão simples, mas considero que é (mesmo) cada vez mais raro.
Ouvir, apenas.
Estar, apenas.
Olhar, apenas.
Estar presente, apenas.
Nem tudo é sobre ti. Nem todos querem a tua opinião. As pessoas só querem alguém que as oiça até ao fim.