Deixem-nos ser crianças!

Crónicas 30 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Tenho ouvido muitos adultos preocupados com o bem-estar das crianças. Defendem que as crianças precisam de brincar. De se afastar dos ecrãs e de se aproximar mais das pessoas que estão responsáveis por lhes mostrar o que é o amor incondicional. Escrevem-se livros sobre a ansiedade que esta nova geração sente, revela e espelha. A teoria muito bem defendida por quem usa gravata e fala, mais ou menos bem penteado, num horário pseudo nobre. Todos têm opinião. E todos parecem donos da razão.

 

No entanto, os mesmos adultos que falam sobre como as crianças deviam ter espaço e tempo, não parecem muito empenhados em dar-lhos. Nós, os adultos, continuamos a oferecer às novas gerações o nosso exemplo e o nosso modelo de rapidez desenfreada, de foco no prémio, no resultado e na produtividade. Oferecemos a nossa incapacidade de sentir o que trazemos dentro e, sem querer, mostramos-lhes que é isso que deverão fazer também. Oferecemos pressa e a ideia de que tudo é urgente e tudo é para ontem. Oferecemos a nossa ansiedade. O nosso estilo de vida em modo de sobrevivência. E as crianças vão bebendo dessa fonte poluidíssima que lhes disponibilizamos.

 

Podemos escrever mil livros e dizer as maiores verdades sobre o mundo e as coisas. Se não as praticarmos, serão palavras vazias e sem ecos de futuro. Falta-nos resolver o estilo de vida dos adultos. Falta-nos ter tempo. Espaço. Falta-nos conseguir ser quem somos sem nos sentirmos culpados por isso. Falta-nos olhar como quem, realmente, quer ver.

 

As crianças não precisam de teorias. Precisam de modelos que se cumpram e que se amem. Precisam de uma sociedade, de escolas e de círculos focados na calma, na paz e no tempo de qualidade.

 

Enquanto não nos curarmos como adultos não poderemos ter gerações de crianças mais felizes e mais livres.

 

Enquanto não soubermos corrigir os desvios que têm sido feitos, não poderemos (nem saberemos) percorrer outros caminhos. Daniel Sampaio intitulou um dos seus livros: “Inventem-se novos pais”. E eu acrescento – inventem-se novos adultos. É o que todas as crianças merecem.

Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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