Amor em silêncio. A história do Sr. Moisés e da D. Alzira

Crónicas 3 agosto 2026  •  Tempo de Leitura: 4

Na sala de visitas da Unidade de Psicogeriatria do meu hospital,
havia uma cadeira que o tempo já conhecia.
Sempre ali.
Todos os dias.
À mesma hora.
Com a mesma mulher sentada:
Alzira.


O corpo franzino, o cabelo preso com cuidado,
e aquele olhar cheio de passado.
Ao lado, sempre ao lado,
o Sr. Moisés.
O homem da sua vida.
O amor de uma existência inteira.


Estavam casados há tantos anos
que já nem se distinguia onde acabava um e começava o outro.
Nunca tiveram filhos,
mas tiveram tudo:
viagens em dias comuns,
jantares improvisados à luz da lâmpada da cozinha,
segredos trocados entre lençóis e silêncios cúmplices.


Depois veio a doença…
aquela que apaga devagar,
sem pedir licença.
O Sr. Moisés foi ficando cada vez mais calado, mais longe,
até que se fez ausente
num corpo que ainda ali estava.


Foi internado.
Primeiro por uns dias.
Depois por meses.
Depois… para sempre.


E Alzira… Alzira ficou.
Não apenas no coração.
Ficou mesmo. Presente. Fiel.
Visitava-o todos os dias,
sem falhar uma única manhã,
como quem reza, como quem ama,
como quem resiste à erosão do esquecimento.


Sentavam-se lado a lado.
Ele, calado, com o olhar perdido algures,
num mundo que ninguém mais via.
Ela, firme, com as mãos no colo,
num silêncio de quem sabe permanecer,
que era tudo menos vazio.


Quando eu me sentava com ela,
ela falava-me como quem sussurra memórias ao ouvido de Deus.
Contava-me histórias do seu primeiro beijo,
de como ele a pediu em namoro,
dos passeios ao domingo,
do cheiro da roupa acabada de passar.
Falava-me do amor…
não do amor romântico dos filmes,
mas do amor que habita na mesma casa,
que espera no hospital,
que aguenta o cansaço com a leveza de quem já fez as pazes com a vida.


Ela sabia.
Sabia que ele não voltaria mais para casa.
Que os dias deles como dantes tinham ficado presos noutra estação.
Mas não desistia.
Porque, dizia-me,

 

“o amor não é só quando se é jovem e bonito.
O amor é sobretudo agora,

quando ele já não me reconhece,

mas o meu coração ainda o chama de ‘meu marido’.”


E ali estavam eles.
Dia após dia.
Calados.
Juntos.
A dar sentido à palavra "aliança",
a mostrar ao mundo que o amor verdadeiro não faz barulho,
mas é profundamente transformador.


Às vezes, eu pensava:
será que Deus passa por aqui?
E depois via o modo como ela lhe ajeitava a gola da camisa,
como lhe limpava os cantos da boca,
como lhe afagava a mão com uma ternura intacta…
E percebia:
ali estava o Sorriso de Deus.
Discreto, persistente, real.


Ali, naquela sala de visitas,
eu era uma testemunha da dignidade.
E podia ver que há esperanças que não precisam de palavras,
e confianças que se constroem em silêncio.


Testemunhei um amor que não termina quando a doença chega,
às vezes, é aí que ele começa a ser mais verdadeiro.
E que há mulheres como Alzira
que continuam a amar
quando já não há garantias,
nem respostas,
nem retorno.


E que há homens como o Sr. Moisés
que, mesmo ausentes,
ainda são morada de um amor inteiro.


E que o sorriso de Deus pode muito bem ter a forma
de uma mulher que, envelhecida pelo tempo,
ainda se levanta todos os dias
para estar com aquele que ama.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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