Não resolve nada e, ainda assim, muda tudo

Crónicas 20 junho 2026  •  Tempo de Leitura: 5

A mensagem chegou-me por WhatsApp como tantas outras: chegou sem contexto, sem aviso, no meio de coisas pequenas que ocupam o dia.

 

Era uma mensagem do Tiago, um colega do meu hospital.


Simples, directo:


— “Uma questão… Quem era a Verónica?"


Fiquei a olhar para o ecrã durante uns segundos.


Podia ter respondido logo: “Não aparece na Bíblia.” E teria sido verdade.

Mas também teria sido curto demais. E, se calhar, seria até um pouco defensivo, como se fechasse a porta à pergunta antes mesmo de a deixar entrar.

 

Escrevi:


— “Curiosamente… não aparece nos Evangelhos. Mas na tradição bíblica foi a mulher que limpou o rosto de Jesus quando ele levava a cruz às costas.”

 

— “Exacto… mas por acaso não sei quem ela era” – respondeu ele.


Completei a minha resposta:


— “Não há muitas referências sobre ela, apenas que durante o caminho de Jesus para o Calvário, uma mulher sai da multidão, aproxima-se dele e limpa-lhe o rosto com um pano, e nesse pano teria ficado impressa a face de Cristo”.


— “Pois... Eu sabia que havia mais qualquer coisa, que não "apenas" limpar o rosto. Obrigado”


A conversa ficou ali. Curta. Quase banal.


Uma pergunta. Duas ou três respostas. Um “Obrigado” no fim.


E, no entanto, não saiu de mim.


“Eu sabia que havia mais qualquer coisa…”


Foi a última coisa que ele escreveu. E essa frase ficou.

Não ficou por causa da Verónica. Mas ficou por causa desse “mais”.

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Horas depois, entrei numa das Unidades do meu hospital.

Era um daqueles dias cinzentos. Sem grandes acontecimentos, mas com a visibilidade dos cansaços que se vão acumulando em silêncio.

 

Um doente mais agitado. Outro completamente fechado. Profissionais a fazerem o que podem. E, muitas vezes, a fazerem um pouco mais do que podem…

 

Sentei-me ao lado de um homem que conheço há algum tempo.


Não lhe disse grande coisa.


Ele também não.


Ficámos ali.


Ao fim de um bocado, passou uma auxiliar.


Vinha com pressa, como quase sempre vêm com pressa, porque o trabalho aperta.

 

Parou um segundo. Olhou para ele.


— “Tem aqui a cara toda suja…”


Disse-o com naturalidade. Sem peso. Sem discurso.


Foi buscar um pano. Molhou-o. E limpou-lhe o rosto.

 

Demorou menos de um minuto.


Não houve nenhum silêncio solene. Não houve nenhuma frase marcante. Não houve nada que, visto de fora, justificasse parar.

 

Acabou. E seguiu. Como quem faz apenas o que tem a fazer.

 

Mas ele ficou.


Diferente.


Endireitou-se ligeiramente. Passou a mão pelo rosto, como quem reconhece qualquer coisa. E ficou a olhar em frente de outra maneira.

 

Nada de extraordinário.


E, no entanto, ali estava.

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Lembrei-me da mensagem do Tiago.


“Eu sabia que havia mais qualquer coisa…”


Sim. Há.

 

Mas não é mais informação. Nem mais detalhe histórico. Nem mais precisão sobre quem era ou deixava de ser.

 

O “mais” está noutro lugar.


A Verónica, seja ela quem for, não muda o rumo da história. Não impede a cruz. Não altera o fim. Faz um gesto pequeno.

 

Quase inútil, se for medido pelos resultados.

 

Mas não é inútil.

 

Porque naquele momento, alguém deixa de ser apenas sofrimento exposto e volta, ainda que por instantes, a ser alguém.

 

E isso faz uma diferença gigantesca. Sim, faz…

Não muda tudo à nossa volta, é verdade.

Mas muda alguém.

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Às vezes procuramos o “mais” em explicações e ficamos presos à ideia de que só vale a pena o que resolve. O que é mensurável.

 

Mas no hospital, tal como na vida, há demasiadas coisas que não se resolvem. E o “mais” está quase sempre nos gestos que passam despercebidos.


E a pergunta da Verónica, que parece antiga, afinal não o é.


Repete-se todos os dias, nos corredores e nas Unidades de internamento:


quando não dá para curar,

quando não dá para impedir,

quando não dá sequer para explicar…

 

quando tudo é insuficiente,

quando nada parece chegar,

quando o que fazemos é sempre pouco…


ainda assim, fazemos

ou passamos ao lado?

 

tu passas ao lado

ou aproximas-te?


A conversa acabou com um “Obrigado”.

Mas acho que a resposta, a única que realmente interessa, não se escreve em mensagens.

Escreve-se nisto: num pano molhado, num rosto limpo, num segundo de interrupção do abandono.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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