Entre o nada e o Pai Nosso

Crónicas 16 julho 2026  •  Tempo de Leitura: 3

O Xico não era homem de rezas,
nem de santos, nem de igrejas.
Mas era um homem de respeito,
daqueles que não julgam,
que olham de frente,
e que escutam em silêncio o que não entendem.

Quando soube que eu estava a preparar um Retiro para os doentes,
em Fátima, terra de fé e de promessas,
veio ter comigo, com o seu jeito directo, e disse-me:
“Também quero ir.”

Olhei-o com surpresa (sim, é verdade),
mas sem desconfiança.
Expliquei-lhe:
“Um Retiro não é um passeio, Xico.
Lá, há silêncio.
Há oração.
Há tempo para mergulhar para dentro.”

Ele não hesitou:
“Eu não rezo,
mas sei estar calado.”

E foi.
Com os outros,
com a alma na rectaguarda
mas com o coração curioso.

Lá, não dobrava os joelhos,
mas detinha-se nos tempos longos de silêncio.
Enquanto outros falavam com Deus,
o Xico apenas… escutava.

Voltou o mesmo (ou talvez não... Não sei).
Continuava sem rezas,
mas trazia nos olhos um respeito mais sereno,
como quem sabe que há mistérios que não se entendem,
mas que merecem ser acolhidos.

O tempo passou,
como sempre passa,
e um dia chegou-lhe o cancro.
Veio sem convite,
bateu forte e ficou.

Estive com ele ao longo dos dias que escureciam.
Falávamos pouco,
mas bastava.
Havia um modo novo de estar ali,
sem fé declarada,
mas com uma confiança muda,
como se me dissesse:
“Continua aí.
Isso basta.”

Depois veio a morte.
Silenciosa, como a oração que nunca fez.

Fui ao funeral.
Sem cruz,
sem salmos,
sem incenso.

Mas na sala mortuária,
a mãe do Xico,
com os olhos marejados e ternos,
entregou-me um envelope.
“É para si,” disse-me.
“Ele deixou comigo,
e disse que só lho entregasse quando partisse.”

Abri-o.
Lá dentro,
uma carta breve.
Apenas uma linha:

“No dia em que eu morrer, quero que o Fernando reze por mim, e comigo, um Pai Nosso.”

E naquele instante,
no meio do silêncio dos que ficam,
as palavras mais antigas ergueram-se devagar.

Pai Nosso, que estais no Céu…

E ali, naquele espaço sem rituais,
o invisível tocou o visível.
A oração não foi de conversão,
foi de comunhão.
Foi de ternura.
Foi de confiança.

O Xico não partiu crente,
mas partiu de mãos dadas
com a Esperança.

Porque há caminhos
que não passam pelas palavras,
mas chegam ao coração de Deus
pelo silêncio de um homem
que apenas quis ser lembrado
com dignidade,
e com um Pai Nosso
dito devagar.

Amém.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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