O amor de alguém

Crónicas 2 julho 2026  •  Tempo de Leitura: 5

Há um erro em que caímos muitas vezes, empurrados pela pressa.


O de acreditar que, por detrás da porta de um hospital, mora apenas um doente.

 

Mas não. Não mora. Definitivamente, não mora!


Ali nunca está apenas um doente.


Ali está o universo inteiro de uma vida.


Está uma criança que um dia adormeceu ao colo da mãe. Está um pai que carregou o filho aos ombros. Está uma mulher que esperou anos pelo homem que amava. Está um amigo que conhecia o caminho para fazer sorrir quem chorava. Está alguém que foi indispensável na vida de outra pessoa…


Porque ninguém é apenas aquilo que a doença deixou à vista.


A doença pode rasgar o corpo, e pode até desfragmentar a mente, mas não apaga a história.

Silencia a voz, mas não cala o amor.


Enfraquece a memória, mas não consegue apagar as pegadas deixadas no coração daqueles que um dia disseram: “Amo-te”


Há sempre alguém que, ao olhar para aquele rosto marcado pelo sofrimento, continua a ver beleza.

 

Alguém que não vê sondas, não vê cicatrizes nem vê limitações.

 

Vê o primeiro beijo.

Vê as mãos que embalaram um filho.

Vê os serões à volta da mesa.

Vê as discussões que terminaram em perdão.

Vê uma vida inteira.

É por isso que nenhum doente cabe numa cama.

 

Porque há demasiadas vidas a habitarem dentro dele.

 

E essa é uma das grandes tragédias do nosso tempo: aprendemos a medir as pessoas pelo que conseguem fazer, quando Deus nunca deixou de as medir pela infinita capacidade que têm de amar e de serem amadas.

 

O Evangelho nunca nos apresenta um Cristo fascinado pelos fortes, ou apenas por aqueles que podiam pagar os cuidados.

 

Jesus detém-Se sempre onde os outros passam depressa.

 

Ajoelha-Se diante da fragilidade.

Toca a carne que todos evitam.

Demora-Se junto de quem já ninguém considera importante.

Porque Deus conhece um segredo que nós esquecemos demasiadas vezes:

o valor de uma vida nunca diminui quando as suas forças diminuem.

 

Há uma santidade escondida na vulnerabilidade.

 

Há uma espécie de sacramento em cada corpo ferido.

 

Como se Deus continuasse a escolher a carne mais frágil para recordar ao mundo que o amor nunca depende da perfeição.

 

Foi esse segredo que São João de Deus compreendeu como poucos.

 

Quando todos viam pobres, loucos, abandonados e moribundos, ele via irmãos.

Não se aproximava para tratar apenas uma doença, mas para honrar uma dignidade.

Sabia que cada pessoa transportava uma história que merecia ser escutada, um nome que merecia ser pronunciado com respeito e um coração que continuava a ser infinitamente precioso aos olhos de Deus.

 

A hospitalidade nasceu desse olhar.

 

Não do desejo de curar apenas o corpo, mas da coragem de amar a pessoa inteira.

 

Quando te aproximares de um doente, esquece, por um instante, a doença.

 

Imagina a mãe que ainda reza por ele. Por aquele filho tão amado.

 

A filha que todos os dias pergunta ao pai como passou a noite.

 

O pai que carregou às cavalitas os filhos e os netos em animadas brincadeiras

 

O marido que continua a acariciar o cabelo da esposa, mesmo quando ela já não sabe o seu nome.

 

O neto que guarda uma fotografia antiga do avô onde aquele rosto ainda ria.

 

Depois, levanta ainda mais o olhar.

 

Contempla Deus.

 

Não o Deus distante das ideias, mas o Deus que conhece aquele nome desde antes da criação do mundo. O Deus que recolheu cada lágrima, que esteve presente em cada alegria, que nunca retirou os olhos daquele filho, nem quando o mundo deixou de o ver.

 

É esse o olhar que São João de Deus nos deixou como herança.

 

Olhar até que a doença deixe de ser o centro.

Olhar até que a pessoa volte a aparecer.

Olhar até descobrir, por detrás de cada fragilidade, alguém que continua a ser amado sem medida.

 

E nesse instante o olhar transforma-se.

Já não estás diante de um desconhecido.

Já não estás diante de um peso.

Já não estás diante de "mais um".

Estás diante do amor de uma família.

Estás diante do amor de Deus.

 

Cuidar de um doente não é apenas aliviar uma dor. É entrar, descalço, no lugar mais sagrado da existência humana.

 

Porque um doente nunca é apenas um doente.

É sempre o amor de alguém.

 

E é sempre, para Deus, um filho infinitamente amado.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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