Entre os frágeis, o corpo de Cristo
No hospital psiquiátrico, onde a mente se desencontra e o silêncio tem outras vozes,
há um grupo de doentes que, todos os domingos, se reúne.
Sentam-se diante do altar com olhos vagos, mãos inquietas e corações disponíveis.
Ali, naquele espaço que desafia a lógica e rompe com o esperado,
eles aguardam a Eucaristia com uma fidelidade que não precisa de explicação.
Todos os domingos, comungam.
Aproximam-se do Pão como quem procura qualquer coisa maior que o próprio nome.
Talvez não saibam dizer o que é “presença real”, mas intuem, com a linguagem do coração,
que ali há um alimento que os toca onde nem os remédios chegam.
Um dia, um jovem seminarista veio ter comigo.
Estava visivelmente incomodado.
Trazia nas mãos o zelo da doutrina, e nos olhos, a inquietação do que é certo.
“Por que lhes damos a comunhão?” – perguntou-me, quase em protesto.
“Eles não sabem o que estão a fazer.
Não compreendem o que é aquilo.
Não têm consciência do que estão a receber.”
Fiquei em silêncio por momentos.
Depois perguntei-lhe com calma:
“Ser doente mental é pecado?
E tu?... tens plena consciência do que é a comunhão, em toda a sua profundidade,
em toda a sua eternidade, em todo o seu amor incondicional?
Sabes o que é ser invadido por Deus?
Compreendes o mistério…
ou apenas repetes o rito?”
Ele não respondeu de imediato.
Baixou os olhos.
Procurou uma resposta, sem encontrar.
Continuei:
“Jesus não veio buscar os sãos, nem os justos,
mas veio ao encontro dos perdidos, dos frágeis, dos que o mundo esquece.
Ele tocava os impuros, comia com os pecadores,
parava junto dos loucos que falavam sozinhos no deserto.
Não foi a lucidez que atraiu o olhar de Deus, mas a sede.
Não foi o saber teológico que moveu o coração de Cristo, mas o amor nu, despido de lógica e de regras.”
Lembrei-lhe que a comunhão não é um prémio para os puros, mas pão para os famintos.
Não é um exame de consciência perfeita, mas um encontro de misericórdia.
E no fim, disse-lhe:
“Talvez estes doentes não saibam dizer com palavras o que é a Eucaristia.
Mas reconhecem a presença com o corpo, com o silêncio, com a paz que os visita.
E talvez, entre as confusões da mente, seja o coração deles que entende melhor o que muitos de nós já esquecemos.”
Naquele domingo, o jovem não voltou a falar.
Sentou-se atrás.
E observou.
Viu as mãos trêmulas que se estendiam.
Viu olhos que brilhavam por um instante.
Viu corpos inquietos repousarem por breves segundos.
E ali, entre a loucura e a paz,
foi-lhe dada a possibilidade de perceber.
Cristo não espera que sejamos capazes.
Apenas que estejamos abertos.
E talvez, entre os que o mundo chama de loucos,
haja uma lucidez mais pura:
a de quem ama, mesmo sem saber dizer porquê.
E se conseguiu olhar com os olhos do coração
pôde ver que, entre aqueles gestos desajeitados,
acontecia um milagre.