Entre os frágeis, o corpo de Cristo

Crónicas 7 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 4

No hospital psiquiátrico, onde a mente se desencontra e o silêncio tem outras vozes,
há um grupo de doentes que, todos os domingos, se reúne.

 

Sentam-se diante do altar com olhos vagos, mãos inquietas e corações disponíveis.
Ali, naquele espaço que desafia a lógica e rompe com o esperado,
eles aguardam a Eucaristia com uma fidelidade que não precisa de explicação.

 

Todos os domingos, comungam.

 

Aproximam-se do Pão como quem procura qualquer coisa maior que o próprio nome.
Talvez não saibam dizer o que é “presença real”, mas intuem, com a linguagem do coração,
que ali há um alimento que os toca onde nem os remédios chegam.


Um dia, um jovem seminarista veio ter comigo.

Estava visivelmente incomodado.

Trazia nas mãos o zelo da doutrina, e nos olhos, a inquietação do que é certo.

“Por que lhes damos a comunhão?” – perguntou-me, quase em protesto.

“Eles não sabem o que estão a fazer.

Não compreendem o que é aquilo.

Não têm consciência do que estão a receber.”


Fiquei em silêncio por momentos.


Depois perguntei-lhe com calma:

“Ser doente mental é pecado?

E tu?... tens plena consciência do que é a comunhão, em toda a sua profundidade,
em toda a sua eternidade, em todo o seu amor incondicional?

Sabes o que é ser invadido por Deus?

Compreendes o mistério…

ou apenas repetes o rito?”


Ele não respondeu de imediato.

Baixou os olhos.

Procurou uma resposta, sem encontrar.


Continuei:

“Jesus não veio buscar os sãos, nem os justos,

mas veio ao encontro dos perdidos, dos frágeis, dos que o mundo esquece.

Ele tocava os impuros, comia com os pecadores,

parava junto dos loucos que falavam sozinhos no deserto.


Não foi a lucidez que atraiu o olhar de Deus, mas a sede.

Não foi o saber teológico que moveu o coração de Cristo, mas o amor nu, despido de lógica e de regras.”

 

Lembrei-lhe que a comunhão não é um prémio para os puros, mas pão para os famintos.
Não é um exame de consciência perfeita, mas um encontro de misericórdia.

E no fim, disse-lhe:

“Talvez estes doentes não saibam dizer com palavras o que é a Eucaristia.

Mas reconhecem a presença com o corpo, com o silêncio, com a paz que os visita.

E talvez, entre as confusões da mente, seja o coração deles que entende melhor o que muitos de nós já esquecemos.”

 

Naquele domingo, o jovem não voltou a falar.

Sentou-se atrás.

E observou.


Viu as mãos trêmulas que se estendiam.

Viu olhos que brilhavam por um instante.

Viu corpos inquietos repousarem por breves segundos.

 

E ali, entre a loucura e a paz,

foi-lhe dada a possibilidade de perceber.

 

Cristo não espera que sejamos capazes.

Apenas que estejamos abertos.

E talvez, entre os que o mundo chama de loucos,

haja uma lucidez mais pura:

a de quem ama, mesmo sem saber dizer porquê.


E se conseguiu olhar com os olhos do coração

pôde ver que, entre aqueles gestos desajeitados,

acontecia um milagre.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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