Autorizados a partir
Durante algum tempo, além do hospital onde trabalho há já quase 40 anos, havia um outro lugar que me esperava às Quintas-Feiras, de quinze em quinze dias: um lar de idosos na Lousa, uma pequena freguesia de Loures.
Não era um espaço grande, nem um espaço particularmente bonito.
Tinha corredores estreitos, tinha uma sala com cadeiras alinhadas junto às paredes e tinha um silêncio que não era propriamente ausência de som... era, antes, excesso de tempo.
Ali moravam pessoas muito idosas.
Idosas no corpo. Velhas na memória.
Algumas dessas pessoas sabiam que estavam a aproximar-se do fim da vida e diziam-no com uma serenidade que desconcertava.
Outras já tinham partido antes do corpo, habitavam territórios difusos, presos a processos demenciais que lhes roubavam o presente, mas que lhes deixavam, intacto, um fragmento de passado.
Havia quem perguntasse pela mãe.
Quem chamasse pelo marido morto há quarenta anos.
Quem repetisse a mesma frase como se fosse uma oração quebrada.
Mas havia, sobretudo, aquela dor silenciosa da espera.
Em boa verdade, não uma espera ansiosa de quem deseja alguma coisa. Mas era uma espera resignada de quem sabe que está a partir.
Uma espera que dói sem fazer barulho.
Nas primeiras visitas, tentei responder a perguntas que quase ninguém me fazia.
Falei de Deus, de sentido, de esperança...
Até perceber que, naquele lugar, o que curava não era explicar. Era lembrar.
Comecei a perguntar pelos campos,
pelas festas da terra,
pelas colheitas,
pelos bailes...
Perguntava pelo cheiro do pão acabado de cozer,
pelas primeiras paixões,
pelas romarias...
E de repente, os olhos que estavam opacos ganhavam brilho.
As mãos trémulas desenhavam no ar gestos antigos.
As vozes quebradas tornavam-se firmes por instantes.
A história de cada uma daquelas pessoas ganhava forma e continuava a ser escrita de modo impressionante, não com projectos futuros, mas com memórias resgatadas.
Muitas vezes levei comigo o Jorge e o Ernesto.
Dois companheiros de estrada e de alma.
O Jorge levava uma guitarra, eu e o Ernesto levávamos as vozes mais ou menos afinadas, e um repertório de modas antigas que não vinham em nenhuma playlist moderna, nem tinham conseguido resistir ao esquecimento das rádios.
Bastava começar uma melodia para logo qualquer coisa acontecer.
Uma senhora que mal falava começava, quase de imediato, a murmurar os versos completos de uma cantiga popular.
Um homem que já não reconhecia os filhos marcava o compasso com o pé, perfeitamente sincronizado.
E, como se uma porta interior se abrisse, surgiam histórias nunca contadas.
- “Eu dancei isto na noite em que ele me pediu em namoro”.
- “Foi com esta música que o meu pai voltou da guerra”.
- “Esta cantava-se nas vindimas…”
As canções eram chaves. E nós éramos apenas quem rodava a fechadura.
Havia dias intensos.
Outros que eram profundamente silenciosos.
Havia quem chorasse no meio de uma música.
Havia quem adormecesse a meio da conversa...
E eu fui aprendendo, lentamente, que no fim da vida poucas são as pessoas que nos pedem explicações teológicas.
O que elas pedem, mesmo quando não o sabem formular, é autorização.
Autorização para estar cansado.
Autorização para não ser lúcido.
Autorização para repetir a mesma história.
Autorização para não ter mais força para lutar.
Autorização para simplesmente ser como se está.
Lembro-me de uma senhora, a Maria da Conceição.
Tinha dias de uma clareza impressionante e outros dias em que se perdia completamente.
Num dos seus dias lúcidos disse-me:
- “Tenho medo de incomodar”.
Aquela frase ainda hoje me ecoa. Medo de incomodar… no fim da vida.
Respondi-lhe apenas:
- “Aqui a sua presença nunca e incómoda”
Não lhe falei de céu. Não lhe prometi milagres. Dei-lhe apenas permissão para existir no seu cansaço.
Acho que é isso que significa cuidar até ao fim: não empurrar ninguém para uma serenidade artificial, mas sustentá-la na fragilidade sem a corrigir.
Saía sempre daquele lar diferente de como entrava.
Entrava com a ilusão de que ia levar alguma coisa. Saía com a certeza de que tinha recebido muito mais. Porque cuidar de quem está a partir obriga-nos ao confronto com a nossa própria finitude.
Obriga-nos a perguntar: o que ficará de mim quando o futuro deixar de ser horizonte?
Talvez fiquem memórias.
Talvez fiquem canções.
Talvez fique a forma como autorizámos alguém a ser humano até ao último instante.
Todos saíamos de lá — eu, o Jorge, o Ernesto — com uma consciência nova: cuidar até ao fim transforma quem permanece. Não porque isso nos torne heróis, mas porque isso nos ensina a humildade radical de quem percebe que a vida não se mede apenas pelo que produz, mas pelo que recorda e pelo que é autorizado a sentir.
No fundo, cada quinta-feira, de quinze em quinze dias, era isso:
um ensaio silencioso sobre a dignidade.
Não um ensaio sobre a dignidade da força.
Mas um ensaio sobre a dignidade da fragilidade partilhada.
Numa sociedade que valoriza a eficiência, a rapidez e a produtividade, quem é que hoje tem coragem de dar autorização ao cansaço?
E mais ainda: temos coragem de nos dar essa autorização a nós próprios?