“Só se desilude quem estava iludido”!

Crónicas 29 abril 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Quando uma professora me disse esta frase, não compreendi de imediato. Achei que a desilusão que sentíamos perante os outros tinha, única e exclusivamente, que ver com o que esse “outro” nos fazia.

 

Na verdade, eu associava a desilusão apenas à pessoa que tinha tido uma atitude que eu não tinha gostado ou que me tinha magoado. Era mais fácil assim, realmente. Quando eu me desiludia não tinha qualquer responsabilidade no acontecimento, no evento, na situação.

 

Mas no dia em que a minha professora me (e nos) disse esta frase algo mudou em mim. Começou a nascer e instalou-se uma nova perspetiva. Nesta face do caleidoscópio também aparecia a minha responsabilidade. Também entrava aquilo que eu era.

 

Comecei a compreender que a ilusão era um cenário colocado por mim. Um véu que eu deixava cair em cima da pessoa do outro e que estava de acordo com aquilo que eu queria que ele fosse e fizesse. Como se eu decidisse amar de uma versão de alguém que só existia no meu entendimento e na minha cabeça.

 

E era assim que quando aquela pessoa, aquele amigo, aquele familiar fazia algo que me deixava “desiludida” eu me permitia colocar-me no lugar de vítima. O outro passava a ser o “mau” e eu a “boazinha”. Rapidamente concluí que também eu tinha um papel importante no sentir-me desapontada. Desiludida. Quem sabe até se a “culpa” não era mais minha do que do outro.

 

Como assim?

 

Se eu coloco no outro o peso de ser como eu quero e espero deixo de o ver e de o observar como é. Deixo de encontrar espaço para a sua pessoa, para o seu ser individual, para as atitudes que tem de acordo com a sua própria raiz. Se eu quero o outro à minha maneira e à minha imagem, sou eu quem não está a agir bem em primeiro lugar. O que o outro me vai devolver é apenas uma continuação óbvia da minha atitude e postura iniciais.

 

Se eu quero realmente amar e compreender alguém, tenho de encontrar espaço em mim para uma consciência mais ampla. Para considerar a história do outro como parte sua. Para esperar dele apenas o que ele é e não aquilo que eu gostava que fosse.

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Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

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