Viver em verdade

Crónicas 15 abril 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Viver em verdade é um desafio permanente.

 

Parece que a cada momento somos chamados a fazer desvios da essência que nos habita. É como se o que fosse mais válido e mais aceite socialmente fosse, precisamente, aquilo que não somos.

 

Para sobreviver, somos muitas vezes chamados a mostrar uma versão da nossa vida que pode parecer mais atraente para os outros, mas menos real para nós. E o perigo de mostrarmos algo que não corresponde ao que somos é o de deixarmos de saber, ao certo, que linhas cosem a nossa raiz.

 

Para singrar e para ser aceite há quem consiga mentir, contar meias-verdades, fazer alguém acreditar numa história que só existe na sua cabeça. E é assim que o coração e alma adoecem automaticamente. Só que é muito fácil (e tentador) convencermo-nos desta versão idealizada. Construída para agradar os outros. Erguida para nos proteger daquilo que, por vezes, nos custa ver.

 

Nalguns momentos, custa-nos ver que a vida que temos ou construímos não é exatamente aquilo que gostaríamos. Custa-nos ter a consciência da possibilidade de podermos ter decidido diferente ou de ter feito melhor. É mais simples ficar à espera que tudo se resolva, que as coisas aconteçam por si só.

 

Viver em verdade parece algo óbvio. Inevitável. Mas talvez não seja assim tanto. Talvez cada um de nós esconda (ou guarde?) para si partes que não quer ver reveladas ou escrutinadas pelo olhar alheio. Parece-nos um pouco difícil imaginar que o outro nos compreenderia e aceitaria como somos. Sem mais nem menos.

 

Talvez essas resistências a viver uma vida em verdade e em coerência existam apenas dentro de nós. Talvez esse julgamento externo só exista como projeção do nosso próprio “tirano” interno.

 

A maior honestidade que podemos viver é quando decidimos sê-lo connosco. A verdade é profundamente mais simples do que o esforço de construir uma ilusão ou uma mentira para quem nos olha.

 

Quem sabe se os outros não estão também distraídos com as suas próprias especificidades e não estão, sequer, interessados em analisar-nos ou avaliar-nos.

 

Afinal, talvez uma vida em verdade deva ser vivida de dentro para dentro. E não de dentro para fora.

Marta Arrais

Cronista

Nasceu em 1986. Possui mestrado em ensino de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL). É professora. Faz diversas atividades de cariz voluntário com as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e com os Irmãos de S. João de Deus (em Portugal, Espanha e, mais recentemente, em Moçambique)

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail