No olho da tempestade
Há, na vida, alturas assim. Em que nos vemos dentro da própria tempestade. Como se também ela fizesse parte de nós. Como se tudo à nossa volta fosse, simplesmente: caos, lama e destruição.
É assim que nos temos visto nas últimas semanas. A braços com uma intempérie externa que nos veio, igualmente, desregular internamente. Também nós parecemos trazer a chuva e o vento connosco, como se o próprio sol (de dentro e de fora) fosse uma miragem ou algo que já nem sabemos se existe.
Podemos pouco contra a natureza.
Podemos pouco contra a vida e os seus desígnios mais ou menos arbitrários.
Quando achamos que controlamos o que acontece, vem algo que nos retira as mãos do leme. Quando damos conta já estamos de cara no chão com a vida agarrada ao nosso pescoço.
Vivemos tempos desafiantes como seres individuais, como portugueses e como humanidade. Valorizámos, e valorizamos, durante demasiado tempo o excesso de trabalho, o ultrapassar de limites, o “passar por cima dos outros” a todo o custo, o egoísmo, a exaltação narcísica e individualista que trucidou o sentido de comunidade global.
Não nos esqueçamos que temos responsabilidades perante os que partilham caminho connosco. Também as temos perante os desconhecidos ou necessitados. E, em último caso, temos também a responsabilidade de cuidar de nós e do que somos.
Afinal, se eu não souber cuidar de quem sou e do que preciso como vou conseguir acender a lanterna para que outros me sigam?
Que saibamos atravessar esta altura tão profundamente instável e triste com a fé de que também isto passará. Como sempre. Como antes. Como daqui para a frente.
Também isto. E isso. Passará.