Pessoa interessante

Crónicas 20 outubro 2022  •  Tempo de Leitura: 5

Será interessante aquela pessoa que capta a nossa atenção pelo seu prestígio? Ou será que nos atrai pelas suas histórias, pelo modo como fala, ou pelos seus conhecimentos? Quem é para nós uma pessoa interessante? Consideras-te uma pessoa interessante? Todos desejamos ser pessoas interessantes porque dentro de nós, o íntimo anseia experimentar que, ao menos, interesso a alguém. A psicologia do interesse é fundamental para o caminho da vida que fazemos juntos.

Quando alguém participa numa exposição de fotografia com o seu trabalho ou até faz um livro a partir desse material, deseja que isso desperte o interesse das pessoas. Recordo quando uma amiga apresentou-me um livro em publicação de autor com o seu trabalho fotográfico. A cada fotografia associava uma frase que expressava uma parte da sua história. Fascinado e deslumbrado poderia ter ficado por ali e dizer — «Muito bom! Gostei muito!» — mas preferi dizer algo mais concreto e que manifestava, realmente, o interesse que nutria pela sua pessoa — «Quero um. Quanto te devo?» O interesse que demonstramos por uma pessoa não tem o mesmo valor se se ficar apenas pelo que é abstracto. O valor aumenta exponencialmente quando se concretiza num gesto sensível e palpável.

Por vezes questiono, mesmo nas nossas comunidade espirituais, se, realmente, nos interessamos uns pelos outros. Hoje fala-se muito da necessidade de acompanharmos as pessoas, seja no caminho comunitário que fazem juntos ou num acompanhamento mais personalizado que pode, ou não, ser de um teor mais espiritual. De todas as leituras que fiz e escutas belas que ouvi sobre o assunto, notei que o “interesse pelo outro” refere-se pouco. Porém, reconheço que uma das experiências mais dolorosas (e que já experimentei na pele) é quando as pessoas não se interessam por nós. Consideram que estamos sempre bem e que o interesse pelo outro reduz-se a uma boa conversa a começar por — «está tudo bem?» Antes, talvez fosse uma pergunta relevante e de proximidade. Hoje, parece-me soar mais a cliché. Uma experiência.

Quando publiquei o meu livro palavras, sabia que não seria um sucesso de vendas por se tratar de uma Edição de Autor disponível através da Amazon que envolvia uma compra online. Não me preocupava muito com o “insucesso” de vendas, mas reconheço que essa experiência possui um traço psicológico inesperado e que suplantava, em muito, qualquer materialismo que normalmente lhe associamos. Em família decidimos mandar imprimir uns quantos exemplares, a pensar nas pessoas que têm mais dificuldade com as compras on-line. Quando tive oportunidade de expor o livro em papel para um conjunto de pessoas que conhecia, esperava que houvesse mais interesse pelo livro do que realmente houve. Não posso interpretar o desinteresse pelo livro como um desinteresse pela minha pessoa, mas (contra a minha vontade) essa interpretação entra inadvertidamente na psique. Pude verificar o seu efeito quando num grupo ainda mais restrito de amigos partilhei que sobraram alguns livros, e um desses amigos, imediatamente, pagou o livro por MBway e nem sequer o tinha na mão. Naquele gesto, que me tocou profundamente e comoveu, experimentei na carne como ele compreendia que no meu livro, na realidade, era um pouco de mim que oferecia ao mundo e, porque ele se interessa por mim, foi natural interessar-se por ter um pouco de mim perto de si.
Recentemente, num encontro, por não ter qualquer responsabilidade na sua organização, procurei fazer com profundidade esta experiência de me interessar pelos outros. Cada pessoa com quem falei revelou-se uma pessoa profundamente interessante. E comecei a pensar que impacte teria nas nossas comunidades e até na própria sociedade se nos interessássemos mais uns pelos outros. Pois, ninguém está isento de falhar quando os outros menos esperam (falo por mim). E se o interesse é recíproco, todas as pessoas do mundo deveriam ser consideradas pessoas interessantes.

Porém, todos conhecemos pessoas verdadeiramente aborrecidas porque perdem-se nos detalhes quando falamos com elas, ou possuem uma personalidade que nos desperta o desinteresse imediato. Penso que seja relevante estarmos atentos ao tipo de experiência que podemos proporcionar aos outros e que se arrisca a fazerem-se sentir invisíveis e pouco significativos.

Ninguém gosta de ser ignorado porque se sente só e, no íntimo, experimenta a natureza relacional que nos faz verdadeiramente humanos. Quando se interessam por nós, genuinamente, penso que nos sentimos pessoas interessantes, mas mais. Sentimo-nos amados. Talvez seja o amor desinteressado que faz de cada pessoa, uma pessoa interessante.


Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao

Aprende quando ensina na Universidade de Coimbra. Procurou aprender a saber aprender qualquer coisa quando fez o Doutoramento em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico. É membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado é Tempo 3.0 - Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo e em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.
 
 
Acompanhe os escritos do autor subscreveendo a Newsletter  Escritos 

Subscrever Newsletter

Receba os artigos no seu e-mail