Decálogo: 30 anos entre a emigração, a fé e os sinais de Deus.
«Whitechapel (Londres): 30 anos entre a emigração, a fé e os sinais de Deus»
A emigração é feita de distâncias, saudades e recomeços. Mas há histórias em que o desenraizamento se transforma em missão e a fé se torna uma verdadeira pátria. É o caso de Teresa Pereira, leiga católica, natural de Miragaia, no Porto, que viveu uma década em França e três décadas em Inglaterra, dedicando grande parte da sua vida ao serviço da Igreja e das comunidades emigrantes.
Na Igreja de Santa Ana, em Whitechapel, Londres, encontrou muito mais do que um lugar de culto: encontrou uma família espiritual. Ali ajudou a construir uma comunidade viva, marcada pela oração, pela evangelização, pela música e pela caridade, num bairro onde nem sempre foi fácil testemunhar a fé. Foi fundadora do Grupo de Amigos da Canção Nova em Londres, coordenou grupos de oração e lançou a iniciativa das Mil Ave-Marias diante do Santíssimo Sacramento, uma prática que permanece viva até aos dias de hoje.
Nesta conversa, Teresa Pereira revisita três décadas de missão, recordando os desafios da emigração, os momentos de perseguição, os sinais de Deus que marcaram a comunidade de Whitechapel e os frutos espirituais de uma entrega total ao Evangelho. Entre memórias, testemunhos e esperança, deixa também uma palavra aos milhares de portugueses que continuam a viver longe da sua terra natal.
Um testemunho de fé, perseverança e confiança na providência divina, que demonstra como Deus continua a escrever a sua história através da vida daqueles que se colocam generosamente ao seu serviço.
1. COMUNIDADE
Sérgio Carvalho (SC) - Como começou a sua ligação à comunidade católica de língua portuguesa em Whitechapel, Londres?
Teresa Pereira (TP) - A minha ligação à comunidade católica de língua portuguesa começou em 1996, na Missão Católica Portuguesa, com o saudoso Monsenhor Vaz Pinto, natural de Celeirós, Braga. Foi aí que iniciei o meu serviço como catequista, missão que desempenhei durante alguns anos e que marcou profundamente o início da minha caminhada de fé e de evangelização em Londres.
2. PROCURA
SC - O que encontrou naquela comunidade emigrante quando chegou a Inglaterra há cerca de 30 anos?
TP - Encontrei uma comunidade portuguesa cheia de fé, muito ligada às suas tradições religiosas e com uma forte necessidade de manter vivas as raízes cristãs longe da sua terra. Contudo, apesar dessa riqueza, sentia que me faltava alguma coisa. Havia dentro de mim uma inquietação espiritual que, naquele momento, ainda não sabia explicar. Mais tarde, compreendi que Deus me chamava a aprofundar a fé e a assumir um compromisso maior com a comunidade.
3. REFÚGIO
SC - A Igreja de Santa Ana tornou-se um verdadeiro refúgio espiritual para muitos portugueses e brasileiros. O que tornava aquela comunidade tão especial?
TP - Aquela comunidade era especial porque acolhia pessoas de diferentes origens, sobretudo portugueses e brasileiros, unidas pela mesma fé e pela experiência comum da emigração. Muitos chegavam cansados, sozinhos ou com dificuldades familiares e profissionais, e encontravam ali uma verdadeira família.
Conheci a Capelania Brasileira depois de ter participado nos grupos de oração da Renovação Carismática Católica, que contavam com o apoio da Comunidade Shalom. Foi nesse contexto que conheci o padre Fred, natural de Taubaté, no Brasil. Ele dava-nos direção espiritual e celebrava a Eucaristia nas igrejas de Santo Elói e de São Patrício.
Essas igrejas eram alugadas apenas para alguns momentos e tínhamos de sair rapidamente depois das celebrações. Perante esta situação, o padre Fred decidiu falar com o bispo da Diocese de Westminster para pedir um espaço permanente para a Capelania Brasileira. A Igreja de Santa Ana tornou-se, assim, uma casa de oração, acolhimento e fraternidade.
4. PERSEGUIÇÃO
SC - Viveu momentos de grande tensão social e até violência em Whitechapel. Como recorda esse período difícil?
TP - Recordo esse período como um tempo muito duro, mas também como um momento de grande união e resistência espiritual. A igreja situava-se no coração de um bairro maioritariamente muçulmano e vivemos alguns episódios de violência e intimidação.
Alguns jovens da comunidade foram atacados e o padre Fred chegou a receber ameaças de morte através de mensagens telefónicas. Tudo parecia ter como objetivo fazer-nos abandonar Whitechapel. Sentíamos medo, mas também uma grande responsabilidade. Em vez de desistirmos, procurámos permanecer unidos, confiar em Deus e continuar a missão que nos tinha sido confiada.
5. ORAÇÃO
SC - Como nasceu a oração das mil Ave-Marias diante do Santíssimo Sacramento?
TP - A oração das Mil Ave-Marias nasceu de uma inspiração do Espírito Santo, depois de termos vivido tantas ameaças, dificuldades e tribulações. Senti interiormente que precisávamos de intensificar a oração e de nos colocar sob a proteção de Nossa Senhora.
Falei com o padre Fred sobre aquilo que sentia e ele respondeu imediatamente que eu deveria preparar tudo o que fosse necessário. Assim começou a oração das Mil Ave-Marias diante do Santíssimo Sacramento. Foi um momento de grande entrega a Jesus e a Maria, que marcou profundamente a vida da comunidade. Ainda hoje, em Whitechapel, se mantém esta oração.
6. SINAIS
SC - Muitos falam dos sinais espirituais e experiências místicas vividas naquela igreja. Como descreve aquilo que testemunhou?
TP - Foram experiências muito importantes para todos nós, sobretudo porque estávamos a atravessar momentos de grande sofrimento, perseguição e incerteza. Aquilo que testemunhámos foi vivido pela comunidade como um sinal da presença e da proximidade de Deus.
Não era uma procura do extraordinário, mas a certeza de que Deus nos acompanhava no meio das dificuldades. Esses acontecimentos deram-nos força, coragem e esperança. Ajudaram-nos a acreditar que a missão não dependia apenas das nossas capacidades, mas da graça de Deus que agia no meio da comunidade.
7. FRUTOS
SC - Que impacto tiveram esses acontecimentos na fé e na vida da comunidade emigrante?
TP - Esses acontecimentos fortaleceram profundamente a fé da comunidade. Ganhámos coragem para continuar, apesar das dificuldades, e passámos a viver a missão com ainda mais dedicação e alegria.
Naquele período surgiram diversas vocações. Da comunidade de Whitechapel nasceram religiosas, missionários e sacerdotes. As pessoas trabalhavam com gosto, disponibilidade e um forte espírito de serviço. A oração, a fraternidade e os desafios que enfrentámos tornaram a comunidade mais unida e consciente da sua missão evangelizadora.
8. SACERDÓCIO
SC - Ao longo destes anos, que papel tiveram os sacerdotes que acompanharam a comunidade, como o padre Fred, o padre Osvaldo e o padre Vanderley?
TP - Todos esses sacerdotes tiveram um papel muito importante na vida e na construção da comunidade. Naquele tempo, a Capelania ainda estava a dar os primeiros passos e cada um deles contribuiu, à sua maneira, para a sua organização, crescimento e fortalecimento espiritual.
O padre Fred teve um papel fundamental na procura de um espaço para a Capelania e no acompanhamento dos primeiros momentos da comunidade. O padre Osvaldo e o padre Vanderley deram continuidade a esse trabalho pastoral, acompanhando as pessoas, celebrando os sacramentos, orientando os grupos e ajudando a comunidade a crescer na fé.
Cada sacerdote tinha o seu modo próprio de estar e de conduzir a comunidade, mas todos foram importantes para nós. Guardamos uma profunda gratidão pelo serviço, pela presença e pela dedicação de cada um.
9. REGRESSO
SC - Depois de 30 anos em Londres, como foi regressar definitivamente a Portugal? O que mudou em si?
O regresso a Portugal foi difícil. Em Whitechapel eu conhecia o meu lugar, sabia qual era o meu papel dentro da comunidade e sentia-me profundamente envolvida na missão. Ao regressar, encontrei uma realidade muito diferente e tive de reaprender a viver e a encontrar o meu espaço.
Hoje vivo um tempo de maior silêncio, oração e discernimento, procurando compreender aquilo que Deus tem reservado para mim e para o meu marido. Estamos a tentar adaptar-nos a uma nova realidade. Depois de tantos anos de serviço ativo, aprendi também que o silêncio e a espera podem fazer parte da missão.
Mudou em mim a forma de olhar para a vida. Tenho uma fé mais amadurecida, construída entre alegrias, dificuldades, perseguições, encontros e muitos sinais da presença de Deus.
10. TESTEMUNHO
SC - Que mensagem gostaria de deixar hoje aos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo e à Igreja que os acompanha longe da sua terra?
TP - Gostaria de dizer aos emigrantes portugueses que procurem integrar-se nas sociedades onde vivem, sem perderem a sua identidade, as suas raízes e a sua fé. É importante abrir o coração a Deus, procurar uma comunidade católica e não viver a experiência da emigração de forma isolada.
Entreguem-se e abandonem-se nos braços de Jesus e de Maria, confiando que tudo poderá contribuir para o bem. O serviço a Deus e aos outros é muito gratificante. Ajudar o próximo edifica-nos, transforma-nos e dá sentido à nossa vida.
À Igreja, peço que continue a acompanhar os emigrantes, porque muitas pessoas vivem longe da família, enfrentam a solidão e precisam de encontrar uma comunidade que as acolha e as ajude a manter viva a fé. Quem confia em Deus e se coloca ao serviço dos outros nunca fica verdadeiramente sozinho.
Notas Biográficas
Teresa Pereira, leiga, casada com José Pereira, nasceu em Miragaia, no Porto, e tem 62 anos. A sua vida tem sido marcada por uma profunda dedicação à fé, à evangelização e ao serviço da Igreja.
Emigrou ainda jovem, tendo vivido 10 anos em França e, posteriormente, 30 anos em Inglaterra, onde desenvolveu uma intensa atividade pastoral e missionária junto da comunidade portuguesa e de outros fiéis.
Em Londres, foi fundadora do Grupo de Amigos da Canção Nova, contribuindo para a divulgação do carisma desta comunidade e para a dinamização da evangelização entre os emigrantes. Exerceu igualmente a missão de coordenadora do Grupo de Oração Mensageiros do Amor e do Grupo das Mil Ave-Marias, promovendo momentos de oração, formação espiritual e comunhão fraterna, tanto em Londres como, mais tarde, em Guimarães.
Ao longo do seu percurso participou em diversas missões de evangelização, algumas delas fora do país, em colaboração com a Canção Nova, colocando os seus dons ao serviço da Igreja. O seu compromisso manifestou-se em múltiplas áreas pastorais, desde a catequese à animação musical, destacando-se o trabalho desenvolvido na comunidade católica de Whitechapel, em Londres.
No plano familiar, é mãe de quatro filhos, dois dos quais já partiram para a Casa do Pai, sendo atualmente mãe de dois filhos e avó de cinco netos, que constituem uma das maiores alegrias da sua vida.
A sua caminhada é testemunho de uma vida inteiramente dedicada ao anúncio do Evangelho, ao serviço das comunidades cristãs e ao acompanhamento espiritual de inúmeras pessoas, fazendo da oração, da missão e da música instrumentos privilegiados de evangelização.
No Youtube pode conhecer uma das suas obras musicais do seu álbum Louvor Infinito.