Decálogo: «Os jovens não são o futuro da Igreja. São o presente…»

Decálogo 10 julho 2026  •  Tempo de Leitura: 13

Os jovens continuam a procurar sentido para a vida, mesmo quando parecem distantes da Igreja. Vivem entre a velocidade do mundo digital e o desejo de relações autênticas, entre a incerteza do futuro e a esperança de encontrar um caminho que dê verdadeiro significado à sua existência.

 

Perante esta realidade, a Igreja em Portugal procura renovar a sua ação pastoral. O novo Quadro de Referência para a Pastoral Juvenil, apresentado no encontro "Porto de Partida", em maio passado, pretende ser muito mais do que um documento orientador: quer inspirar uma pastoral centrada na escuta, no acompanhamento e no protagonismo dos próprios jovens, ajudando comunidades, movimentos e dioceses a caminhar de forma mais missionária e próxima das novas gerações.

 

Nesta edição do Decálogo, conversamos com Pedro Carvalho, diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil da Conferência Episcopal Portuguesa desde novembro de 2024. Casado, pai de três filhos, licenciado em Educação Física e Desporto e com um longo percurso de serviço à pastoral juvenil, foi um dos responsáveis pela organização da Jornada Mundial da Juventude na Diocese de Aveiro e tem dedicado os últimos anos à formação e acompanhamento dos jovens.

 

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Ao longo de dez perguntas, procuramos compreender os grandes desafios da evangelização das novas gerações, o impacto da Jornada Mundial da Juventude, o papel do mundo digital, a importância da escuta e da corresponsabilidade dos jovens, bem como as perspetivas para uma Igreja que deseja caminhar com eles, ajudando-os a descobrir que Cristo continua a ser resposta para as inquietações do nosso tempo.

 

1. Mudança

Sérgio Carvalho (SC) - O novo “Quadro de Referência” apresentado no “Porto de Partida” pretende ser mais do que um documento de trabalho. Que mudança concreta deseja provocar na pastoral juvenil em Portugal?

 

Pedro Carvalho (PC) - Gostava que este Quadro de Referência ajudasse a mudar a forma como fazemos pastoral juvenil no nosso país. Durante muitos anos fomos muito bons a organizar encontros e atividades para a juventude, mas hoje percebemos que isso, por si só, não basta. Precisamos de processos que acompanhem os jovens, lhes permitam crescer e descobrir o seu lugar na Igreja e no mundo. Mais do que um documento, este é um convite a sonhar mais longe e a construir esse caminho juntos.

 

2. Sentido

SC - Muitos jovens afirmam sentir distância da Igreja institucional, mas continuam à procura de espiritualidade e sentido. Como pode a pastoral juvenil responder a esta aparente contradição?

 

PC - Eu encontro muitos jovens assim. Não deixaram de procurar sentido; procuram-no, muitas vezes só que de formas diferentes. Por isso, acredito que a primeira resposta da Igreja é escutar. Quando escutamos sem preconceitos, percebemos que os jovens continuam a sonhar, a fazer perguntas e a procurar uma vida com significado. É aí que a Igreja pode fazer a diferença: caminhando ao lado deles, e não à frente deles.

 

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3. Protagonismo

SC - O documento fala muito de escuta, acompanhamento e protagonismo juvenil. A Igreja em Portugal está realmente preparada para dar voz aos jovens e confiar-lhes responsabilidades?

 

PC - Estamos a fazer esse caminho e acredito que não há volta atrás. O processo Escuta 360.º e as Assembleias Jovens de Escuta e Corresponsabilidade nasceram dessa convicção: os jovens não são o futuro da Igreja, são o presente. Não queremos apenas ouvir a sua opinião; queremos confiar-lhes responsabilidades, porque quando lhes damos espaço, eles surpreendem-nos pela criatividade, pela coragem e pela capacidade de construir.

 

4. Audácia

SC - Depois da experiência transformadora da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023, que sinais positivos encontrou na juventude portuguesa? E que oportunidades poderão ter sido desperdiçadas?

 

PC - 2023 foi um ano ímpar para a juventude Portuguesa. Mostrou-nos uma geração extraordinária cheia de energia. Jovens capazes de sonhar em grande, de servir com alegria e de assumir responsabilidades quando alguém acredita neles. Jovens que não têm medo de viver o evangelho no seu dia a dia. O Papa Francisco deixou-nos uma missão irrecusável. Pediu-nos para nos aventurarmos no mar da evangelização e da missão e nesse anúncio indicou-nos os caminhos: fazermo-nos ao largo, levarmos juntos por diante a pastoral e não termos medo de nos tornarmos, efetivamente, pescadores de homens, mulheres e os jovens, claro.

 

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5. Relação

SC - Os jovens vivem hoje entre a hiperconectividade digital e uma crescente solidão interior. Como pode a pastoral juvenil evangelizar no ambiente digital sem perder a autenticidade das relações humanas?

 

PC - Temos de estar onde os jovens estão, também no mundo digital. Mas nunca podemos esquecer que o Evangelho acontece sempre num encontro entre pessoas. O digital aproxima, inspira e comunica mas a comunidade acolhe e acompanha. Estou certo que precisamos destas duas dimensões.

 

6. Feridas

SC - Muitos jovens afastam-se porque sentem que a Igreja fala pouco das suas inquietações reais: saúde mental, precariedade, afetos, identidade, futuro profissional. Está a pastoral juvenil preparada para dialogar com estas feridas contemporâneas?

 

PC - Foi precisamente isso que ouvimos no Escuta 360.º - juntos a escutar o futuro. Os jovens pediram-nos uma Igreja que saiba escutar antes de responder. Não esperamos ter respostas para tudo, mas queremos estar presentes na vida concreta dos jovens, acolhendo as suas fragilidades, valorizando os seus sonhos e ajudando-os a descobrir que Deus continua a caminhar com eles. No fundo o desafio é escutar, escutar e escutar, compreender, compreender e compreender, ler os sinais dos tempos, para juntos construirmos uma Igreja interpeladora, alegre, poética, criativa e acolhedora para e com os jovens. Juntos teremos de cooperar, sonhar, arriscar, criar e partir rumo ao outro, seja na nossa terra – paróquia, diocese, movimento ou expressão de Igreja com que nos identificamos, seja no país e no mundo – para agirmos como seres humanos que se sentem irmãos nesta casa comum!

 

 7. Inovação

SC - O novo quadro insiste numa pastoral “em saída”. Isso significa abandonar modelos tradicionais de catequese e grupos juvenis ou antes renová-los profundamente?

 

PC - Acredito mais na renovação do que na substituição. O essencial permanece: anunciar Jesus Cristo aos jovens. O que muda são as formas de o fazer. Somos chamados a encontrar novas linguagens, novos métodos e, sobretudo, uma maior capacidade de acompanhar cada jovem no seu próprio caminho de fé e de vida. Essa renovação não acontece por decreto mas percorrendo um caminho longo. Constrói-se investindo na formação de novos líderes para a pastoral da juventude e na qualidade dos formadores que formam os animadores e todos aqueles que, no dia a dia, caminham mais de perto com os jovens.

 

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8. Futuro

SC - Portugal enfrenta um forte fenómeno de emigração jovem e desencanto social. Como pode a Igreja ajudar os jovens a recuperar esperança no futuro e compromisso com o país?

 

PC - A esperança nasce quando alguém acredita em nós. É isso que queremos fazer: dizer aos jovens que os seus sonhos importam e que podem transformar a realidade onde vivem, cá ou noutro lugar do mundo. A Igreja não existe para alimentar o desencanto, existe para abrir horizontes, despertar vocações e lembrar que vale sempre a pena construir o bem comum.

 

9. Rede

SC - Que papel podem ter os movimentos, associações e novas comunidades na renovação da pastoral juvenil portuguesa? Há espaço para maior comunhão entre diferentes sensibilidades e carismas?

 

PC - Sem dúvida. Ninguém consegue responder sozinho aos desafios da juventude. A riqueza da Igreja está precisamente na diversidade dos seus carismas. O futuro da pastoral dos jovens passa por trabalharmos cada vez mais em rede, valorizando aquilo que cada realidade tem de melhor e colocando sempre os jovens no centro.

Só com diálogo em rede conseguiremos levar esta missão adiante, nesta missão são indispensáveis todos na evangelização da juventude: Bispos, Padres e Diáconos, Religiosas e Religiosos, Consagradas e Consagrados, Diretores e Diretoras dos secretariados, departamentos e serviços da CEP, e suas equipas, Diretores e Diretoras de Serviços Diocesanos e Movimentos, Animadores e demais agentes de pastoral ativos no Mundo da Juventude, Famílias e, claro está, Jovens!

 

10. Esperança

SC - Se tivesse de deixar uma única mensagem aos jovens portugueses que hoje olham para a Igreja com dúvidas, distância ou desconfiança, que palavra lhes gostaria de dirigir?

 

PC - Gostava apenas de lhes dizer isto: não tenham medo de se aproximar de Cristo. Tenho a certeza de que Deus e Igreja não são palavras do passado. A Pessoa e a Mensagem de Jesus Cristo é, e sempre será, força inspiradora para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, e, por isso mesmo, marcada pela Paz.  Há lugar para vocês, para os vossos sonhos, para as vossas perguntas e até para as vossas dúvidas. A Igreja precisa da vossa voz e da vossa coragem. Acredito profundamente que Deus continua a chamar através dos jovens e que o futuro não se espera. Constrói-se. E constrói-se sempre juntos com amor.

 

Notas biográficas

 

PEDRO CARVALHO

Cidadão da Palhaça e do Mundo.

 

Nascido em 1976, vive atualmente na Vila e Paróquia S. Pedro da Palhaça, Diocese de Aveiro, com Catarina Pereira, com quem é casado há 20 anos - pais de três filhos - Salvador, Sebastião e Salomão.

 

Licenciado em Educação Física e Desporto, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, com Mestrado em Gestão Desportiva, pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Integra o quadro do Município de S. João da Madeira como técnico superior há 14 anos, exercendo funções de dirigente da Divisão da Juventude e Desporto desde 2016. No início da sua carreira profissional lecionou em escolas do 3ºciclo e secundário, na zona centro, durante vários anos.

 

Nos últimos anos envolveu-se na coordenação de projetos paroquiais e diocesanos, com especial destaque para a Coordenação do Comité Organizador Diocesano Aveiro – JMJ 2023 (anos 2020 a 2023), Coordenador Executivo do Festival Jota 2009 - Aveiro, membro da equipa de formação do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocacional de Aveiro, entre 2008 – 2011, e membro da equipa organizadora do Secretariado para a JMJ Madrid 2011. Foi ainda Coordenador do Projeto comunitário “Teatro Paixão de Cristo”, de 2011 a 2015 e Coordenador da Celebração dos 50 Anos da Igreja Matriz da Palhaça.  Desde novembro de 2024 é o diretor do departamento nacional da pastoral juvenil da Conferência Episcopal Portuguesa.

 

Ao longo dos últimos 20 anos foi colaborando regularmente com projetos comunitários e de participação cívica. É autor e editor dos livros: “Por mérito deles” (projeto Paixão de Cristo) e “Uma Autarquia por Dentro” (tese de mestrado).

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

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