Decálogo: “Ninguém se salva sozinho”, o olhar do reitor de Fátima
Há lugares que não pertencem apenas à geografia, mas à consciência espiritual da humanidade. Fátima é um desses raros pontos de encontro entre o Céu e a história, onde milhões de peregrinos continuam a chegar movidos pela fé, pela dor, pela esperança ou simplesmente pela procura de sentido.
Mais de um século depois das aparições de 1917, a mensagem de Fátima mantém uma surpreendente atualidade. Num mundo marcado por conflitos, mudanças aceleradas e crises de identidade, os apelos à conversão, à oração e à paz ressoam com uma urgência renovada. Ao mesmo tempo, o Santuário enfrenta novos desafios: acolher multidões cada vez mais diversas, dialogar com as gerações digitais e preservar a profundidade espiritual num contexto de grande visibilidade global.
Nesta edição da rubrica Decálogo, olhamos para o presente e o futuro de Fátima através de dez perguntas dirigidas ao seu reitor, Padre Carlos Cabecinhas. Em pano de fundo, estão também as expectativas em torno de uma eventual visita do Papa Leão XIV, que poderá voltar a colocar Fátima no centro da atenção mundial.
Entre tradição e renovação, silêncio e multidão, pergunta-se: que papel tem hoje Fátima na vida da Igreja e do mundo?
1. Sérgio Carvalho (SC) - O Santuário de Fátima continua a ser um dos maiores centros de peregrinação do mundo. O que mais o surpreende hoje na forma como os peregrinos vivem a experiência de Fátima?
Padre Carlos Cabecinhas (CB) - A devoção dos peregrinos é algo que continua a surpreender-me. O testemunho de fé que deixam no Santuário marca profundamente quem acompanha esta realidade de perto.
É impressionante ver como pessoas de culturas, línguas e gerações tão diferentes vivem aqui experiências muito semelhantes: o silêncio diante da Capelinha, a emoção de uma vela acesa, a oração comunitária. Muitos peregrinos, de proveniências diversas, chegam ao Santuário movidos, não apenas pela devoção religiosa, mas porque procuram um lugar onde possam parar, reencontrar-se consigo próprios e com Deus.
Outro aspeto relevante é a evidente internacionalização de Fátima. O Santuário tornou-se verdadeiramente universal, recebendo peregrinos dos cinco continentes. Isso mostra como a mensagem de Fátima continua a falar ao coração do mundo contemporâneo.
Talvez o mais surpreendente seja precisamente isso: numa época em que muitos anunciavam o afastamento da dimensão espiritual, Fátima continua a atrair milhões de pessoas.

2. SC - A mensagem transmitida em 1917 mantém uma forte atualidade. Que aspetos considera mais urgentes para o mundo contemporâneo: a conversão, a oração ou a penitência?
CB - Eu creio que a mensagem de Fátima, com o seu apelo à oração, à conversão e à penitência, com a sua dimensão de paz e com a exortação a dar a Deus lugar nas nossas vidas, mantém toda a sua atualidade.
Quanto aos apelos à oração, à conversão e à penitência, são os três urgentes no nosso mundo e no tempo em que vivemos, até porque a mensagem de Fátima os apresenta não como aspetos isolados, mas como pilares que se relacionam entre si e igualmente importantes e urgentes. Por exemplo, a conversão, como ação que implica uma mudança pessoal e profunda, só é possível através da oração e da prática da penitência.
Logo na preparação das aparições de Nossa Senhora, o Anjo pediu aos Pastorinhos que orassem muito. Este pedido insistente foi, depois, uma constante em todas as aparições de Nossa Senhora, entre maio e outubro, para que se alcançasse a paz para o mundo e o fim da guerra. Hoje, num mundo onde o flagelo da guerra se torna cada vez mais presente, este apelo mantém uma forte atualidade.
A oração e a penitência são, na mensagem de Fátima, faces da mesma moeda, até porque a oração, em Fátima, projeta-se sempre no outro, nos pecadores, na humanidade… A oração é, de alguma forma, apresentada como antídoto ao individualismo, na perspetiva de que ninguém se salva sozinho, mas em comunhão.
Neste sentido, a conversão surge como a meta para a qual a oração e a penitência caminham juntas. A oração e a penitência são caminhos de conversão, que transformam a pessoa e depois o mundo.
3. SC - Num tempo marcado por guerras e incertezas, como lê hoje o apelo à paz deixado por Nossa Senhora em Fátima?
CB - A violência e a incerteza que se vivem no mundo de hoje fazem com que o apelo à paz deixado por Nossa Senhora em Fátima mantenha toda a sua atualidade. A paz está no centro da mensagem de Fátima. Desde a primeira aparição, em 1917, Nossa Senhora pediu insistentemente a oração, especialmente o terço, pela paz no mundo e pela conversão dos corações. Esse pedido repetiu-se ao longo das aparições e continua hoje a interpelar a humanidade.
Fátima recorda-nos que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas um dom que nasce da reconciliação, da justiça, da fraternidade e da abertura de cada pessoa a Deus. A mensagem de Nossa Senhora aponta para uma transformação interior como caminho indispensável para a construção da paz entre os povos.
Talvez por isso, em momentos de maior sofrimento e tensão internacional, tantos peregrinos continuem a acorrer a Fátima. A Virgem Maria continua a reunir pessoas de diferentes países, culturas e línguas em torno de um desejo comum de reconciliação e de esperança. Aos fiéis de hoje continua a pedir-se algo muito simples e profundamente exigente: que demos lugar a Deus nas nossas vidas, que rezemos pela paz, que cuidemos uns dos outros e que construamos uma cultura de encontro e fraternidade. É essa a grande atualidade da mensagem de Fátima.
4. SC - O Santuário tem reforçado a sua dimensão internacional e digital. Como se conjuga a tradição da peregrinação com as novas formas de presença online?
CB - A tradição da peregrinação e a presença digital do Santuário de Fátima não se opõem. Hoje complementam-se. A experiência presencial continua a ser insubstituível — o caminhar até Fátima, a oração na Capelinha, o silêncio, o acender de uma vela, a participação na Eucaristia e no sacramento da Reconciliação fazem parte de uma vivência profundamente humana e espiritual.
Mas o digital tornou-se um prolongamento dessa experiência e uma forma de manter viva a ligação de milhões de pessoas ao Santuário.
As transmissões online das celebrações, do Rosário e das grandes peregrinações permitem que pessoas de todo o mundo acompanhem diariamente a vida do Santuário. Hoje, a Capelinha das Aparições está permanentemente acessível em direto através das plataformas digitais do Santuário, chegando a peregrinos em diferentes continentes.
Esta presença digital revelou-se particularmente importante durante a pandemia, mas continua a responder a necessidades muito concretas: pessoas doentes, emigrantes, idosos ou fiéis impossibilitados de viajar encontram aí uma forma de permanecer espiritualmente unidos a Fátima. Ao mesmo tempo, os meios digitais permitem chegar às novas gerações e divulgar a mensagem de Fátima de forma mais ampla e internacional.
5. SC - Muitos jovens visitam Fátima, mas vivem numa cultura distante da fé. Que linguagem pastoral é necessária para que a mensagem de Fátima lhes fale ao coração?
CB - Julgo que um dos aspetos mais apelativos de Fátima, não só aos jovens, mas a todos, é o silêncio que aqui se experimenta, que propicia o encontro íntimo, a reflexão e a oração. Esta experiência contemplativa pode e deve ser um bom ponto de partida para a resposta que oferece um sentido à vida e para a qual a mensagem de Fátima aponta: Deus.
Por ter Deus no seu centro, a mensagem de Fátima vale por si mesma, sendo, no entanto, necessário oferecer essa mesma proposta de modo a tocar o coração de uma faixa etária sedenta de experiências marcantes.
No Santuário de Fátima, esse caminho de descoberta pode ser feito através da oração, da participação nas celebrações ou mesmo de uma peregrinação a pé, mas também de outros modos indiretos, mas igualmente válidos e fecundos.
Anualmente, o Santuário oferece diversas oportunidades de voluntariado jovem, cumprido no acolhimento aos peregrinos ou noutros projetos mais concretos como é o caso do “Vem Para o Meio”, uma iniciativa que nos meses de verão oferece férias a pessoas com deficiência e aos seus cuidadores. Este serviço aos outros é uma linguagem pastoral que fala ao coração.
Por outro lado, o espaço da Cova da Iria fala de Deus também pela via da beleza, da arte, que é uma linguagem muito apelativa a todos, sobretudo aos jovens. Um passeio pela arquitetura dos diferentes espaços do Santuário ou uma visita Museu do Santuário ou à atual exposição temporária “Refúgio e Caminho” falam ao coração sobre Deus.

6. SC - A devoção ao Imaculado Coração de Maria está no centro da espiritualidade de Fátima. Como pode esta devoção ser melhor compreendida e vivida hoje?
CB - Na aparição de junho de 1917, diante do sofrimento que Lúcia experimentava por saber que Francisco e Jacinta morreriam em breve, Nossa Senhora deixou uma promessa: “Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.
No caminho para Deus, o Imaculado Coração de Maria é este espaço que garante refúgio perante as dificuldades da vida e que oferece um mapa para o alcançar. Na aparição de 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, Nossa Senhora transmitiu à Irmã Lúcia de Jesus uma proposta concreta para concretizar este caminho, através da devoção dos primeiros sábados, através da meditação, da recitação do terço, da confissão e da comunhão eucarística.
O Imaculado Coração de Maria personifica o acolhimento sem reservas de Nossa Senhora à vontade de Deus e a sua mediação materna em favor da humanidade. É à luz deste exemplo de entrega da Mãe de Deus da garantia de que ela estará sempre connosco que que deve ser perspetivada a devoção ao Imaculado Coração de Maria nos dias de hoje, num esforço de o entender como proposta que nos é apresentada para também nós renovarmos o nosso coração.
Esta devoção é, no final de contas, um convite concreto à conversão, a também deixarmos que o nosso coração se transforme para se tornar mais aberto a Deus e aos outros.
7. SC - O Santuário acolhe milhões de peregrinos por ano. Quais são hoje os maiores desafios logísticos, espirituais e humanos dessa missão?
CB - Hoje, os maiores desafios do Santuário de Fátima são, simultaneamente, logísticos, espirituais e humanos, porque a sua missão não se limita a organizar grandes celebrações. Passa, igualmente, por acolher cada peregrino e proporcionar-lhe uma verdadeira experiência de paz, oração e encontro interior.
No plano espiritual e humano, o desafio é igualmente sentido. O Santuário é chamado a acolher pessoas muito diferentes: desde os peregrinos que vivem a fé de forma intensa e procuram fortalecer a sua relação com Deus, até aqueles que chegam movidos apenas por uma inquietação interior ou aos que olham para Fátima como um ponto turístico.
Talvez o maior desafio esteja precisamente em conseguir acolher todos sem perder a identidade espiritual do lugar.
Do ponto de vista logístico, o desafio é enorme. Nas grandes peregrinações, o Santuário chega a acolher mais de 200 mil pessoas em simultâneo, o que exige uma preparação rigorosa e uma coordenação permanente de segurança, circulação, assistência e acompanhamento dos peregrinos.
Ao longo de todo o ano, a vigilância e o cuidado com os espaços têm igualmente de ser constantes, devido à enorme afluência de visitantes. Um dos grandes objetivos é garantir que todos se sintam devidamente acolhidos, num ambiente sereno e seguro.
8. SC - Fátima é também um lugar de reconciliação. Nota um aumento da procura pelo sacramento da confissão e por acompanhamento espiritual?
CB - Sim, nota-se um ligeiro aumento da procura pelo sacramento da reconciliação e também por acompanhamento espiritual. São muitas as pessoas chegam a Fátima com necessidade de reencontro interior, de escuta e de esperança.
O Santuário continua a ser, para muitos peregrinos, um lugar privilegiado de reconciliação consigo próprios, com os outros e com Deus. Há quem venha movido pela fé vivida desde sempre, mas há também quem procure apenas um momento de paz, de silêncio ou de orientação espiritual. Muitas vezes, é nesse ambiente de oração e recolhimento que surge o desejo da confissão.
9. SC - Muito se fala de uma possível visita do Papa Leão XIV. O que significaria para o Santuário e para Portugal uma nova presença papal em Fátima?
CB - A visita do Papa Leão XIV teria um enorme significado para o Santuário. Fátima tem uma ligação muito especial ao Santo Padre e a oração pelo Papa faz parte da própria mensagem de Fátima.
O Santuário recebeu já a visita de Paulo VI, de João Paulo II por três vezes, de Bento XVI e de Francisco por duas vezes. Cada uma dessas visitas contribuiu significativamente para levar a mensagem de Fátima além das fronteiras portuguesas e para reforçar o papel do Santuário como lugar de oração, paz e esperança para o mundo inteiro.
Por isso, uma visita do Papa Leão XIV seria vivida com enorme alegria e significado. Sabe-se que o convite formal dos Bispos Portugueses e do Presidente da República foi feito e que o próprio Papa já manifestou o desejo de vir a Fátima. Agora, permanece a expectativa e a esperança da sua concretização.

10. SC - Se tivesse de resumir a mensagem de Fátima numa palavra para o mundo de hoje, qual escolheria — e porquê?
CB - Escolheria a palavra “esperança”, porque Fátima continua a recordar à humanidade que Deus não abandona os seus filhos, mesmo nos momentos mais difíceis da história. A mensagem de Fátima apresenta-se como uma mensagem materna de esperança, que reafirma o amor, o cuidado e a proximidade de Deus para com cada pessoa e para com a humanidade.
Essa esperança manifesta-se, desde logo, na forma como o Santuário procura acolher todos os peregrinos. Fátima recorda-nos que esta é a casa da Mãe, e uma mãe tem sempre o coração aberto para todos os seus filhos. É essa dimensão materna que tantas pessoas experimentam quando chegam ao Santuário. Sentem-se escutadas, compreendidas e acolhidas, muitas vezes num momento importante das suas vidas.
Fátima continua a ser para muitos um lugar onde a esperança renasce. Uma esperança que não ignora o sofrimento humano, mas que acredita que ele pode ser transformado pela fé, pela compaixão e pela certeza.
Notas biográficas - O Pe. Carlos Manuel Pedrosa Cabecinhas nasceu a 19 de outubro de 1970, na Bajouca, Diocese de Leiria-Fátima. Entrou para o Seminário de Leiria em 1983 e foi ordenado sacerdote a 7 de maio de 1995, no Santuário de Fátima. Doutorado em Liturgia pelo Pontifício Ateneu de Santo Anselmo, em Roma, exerceu funções de docência na área da Liturgia e desempenhou diversos cargos de responsabilidade pastoral e formativa na Diocese de Leiria-Fátima, nomeadamente na formação dos futuros sacerdotes.
Ao longo do seu percurso, destacou-se também pelo trabalho desenvolvido no âmbito da pastoral litúrgica. Em 2010 foi responsável nacional pelas celebrações presididas pelo Papa Bento XVI durante a sua visita apostólica a Portugal, um dos momentos mais marcantes da vida da Igreja portuguesa nas últimas décadas.
Nomeado Reitor do Santuário de Fátima em abril de 2011, tomou posse a 11 de junho desse ano, sucedendo a D. Virgílio Antunes, atual Bispo de Coimbra. Desde então, tem conduzido pastoralmente o principal santuário mariano português, acompanhando importantes acontecimentos da vida da Igreja, entre os quais se destaca o Centenário das Aparições de Fátima, em 2017, que contou com a presença do Papa Francisco.
Sob a sua orientação, o Santuário reforçou a dimensão evangelizadora da Mensagem de Fátima, apostando na formação dos peregrinos, na valorização da liturgia e no acolhimento de milhões de fiéis provenientes de todo o mundo. Em abril de 2023, foi reconduzido por mais cinco anos no cargo de Reitor pelo bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas.
Reconhecido pela sua sólida formação teológica, competência litúrgica e proximidade pastoral, o Pe. Carlos Cabecinhas é uma das figuras mais relevantes da Igreja em Portugal, especialmente no âmbito da pastoral dos santuários e da divulgação da Mensagem de Fátima.