O Imaculado Coração de Maria nas Memórias da Irmã Lúcia

Santoral 15 junho 2026  •  Tempo de Leitura: 7

Ao longo do primeiro volume das Memórias da Irmã Lúcia, uma expressão destaca-se de forma inequívoca: Imaculado Coração de Maria. Sob diversas formulações – «Meu Imaculado Coração», «Coração Imaculado de Maria», «Imaculado Coração» ou simplesmente «Coração de Maria» – esta realidade espiritual surge cerca de setenta vezes ao longo da obra. Não se trata de um acaso literário nem de uma simples devoção mariana. Trata-se do verdadeiro eixo da Mensagem de Fátima.

 

Desde a aparição de 13 de junho de 1917, Nossa Senhora revela aos Pastorinhos o seu Coração cercado de espinhos e anuncia o desejo de Deus de estabelecer no mundo a devoção ao seu Imaculado Coração. Mais tarde, nas aparições de Pontevedra e Tuy, essa mensagem é aprofundada através dos pedidos dos Cinco Primeiros Sábados e da consagração da Rússia. O Coração de Maria surge como refúgio, caminho de conversão, escola de santidade e instrumento da misericórdia divina.

 

Mas haverá algum significado simbólico no facto de esta referência surgir aproximadamente setenta vezes?

 

Na Sagrada Escritura, o número 70 possui uma riqueza simbólica extraordinária. É o número das nações da Terra segundo a tradição bíblica; o número dos anciãos que auxiliavam Moisés; o número dos discípulos enviados por Jesus em missão; o número que exprime universalidade, plenitude e expansão da ação de Deus a todos os povos.

 

Se o número sete simboliza a perfeição e a ação divina, o número setenta representa essa mesma ação levada à sua plenitude e comunicada ao mundo inteiro. Não deixa de ser sugestivo que o Imaculado Coração de Maria apareça precisamente com uma frequência próxima deste número numa obra que tem como finalidade transmitir uma mensagem destinada não apenas a Portugal, mas à humanidade inteira.

 

As setenta referências parecem recordar que a devoção ao Imaculado Coração não é uma prática privada ou regional. Tal como os setenta discípulos enviados por Cristo, também esta devoção possui uma dimensão missionária universal. O coração da Mãe é apresentado como instrumento escolhido por Deus para alcançar todos os povos e conduzi-los ao encontro do seu Filho.

 

Há ainda outro simbolismo possível. Na tradição bíblica, setenta anos correspondem ao tempo do exílio de Israel. Depois desse período chega a restauração. Em Fátima, o Imaculado Coração surge precisamente como promessa de regresso, reconciliação e paz. A humanidade afastada de Deus é convidada a regressar ao lar espiritual do Pai através do coração da Mãe.

 

Esta reflexão ganha uma atualidade especial nos nossos dias. Em 2025 assinalou-se o centenário da aparição de Pontevedra, em Espanha, onde Nossa Senhora apareceu à Irmã Lúcia e pediu a prática da Comunhão Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados. Em 2026 celebrou-se o centenário da aparição de 15 de fevereiro de 1926, também em Pontevedra, quando o Menino Jesus aprofundou junto da vidente o significado desta devoção reparadora. Estes acontecimentos marcam o início do chamado Ciclo Cordimariano, através do qual o Céu desenvolveu progressivamente a mensagem do Imaculado Coração iniciada na Cova da Iria em 1917 e que conhecerá novos desenvolvimentos nas aparições de Tuy.

 

Os centenários que agora celebramos recordam que a devoção ao Imaculado Coração de Maria não pertence ao passado. Continua a ser uma proposta para o presente e para o futuro da Igreja. Numa humanidade marcada por guerras, divisões, crises espirituais e perda de referências, Maria continua a apresentar o seu Coração como refúgio seguro, escola de santidade e caminho para Deus.

 

Importa, contudo, evitar uma leitura supersticiosa dos números. O valor principal não está na contagem em si mesma, mas na mensagem que ela revela. O facto de o Imaculado Coração atravessar todo o primeiro volume das Memórias demonstra que esta não é uma devoção secundária. É uma verdadeira chave de interpretação da Mensagem de Fátima.

 

Curiosamente, apesar desta centralidade mariana, a mensagem permanece profundamente cristocêntrica. A própria Irmã Lúcia fala frequentemente dos Santíssimos Corações de Jesus e Maria, mostrando que o coração da Mãe nunca é apresentado separado do coração do Filho. Em Fátima, Maria não ocupa o lugar de Cristo; conduz até Ele.

 

Por isso, as cerca de setenta referências ao Imaculado Coração de Maria podem ser lidas como um convite universal dirigido a todos os homens e mulheres do nosso tempo: entrar na escola do coração da Mãe para aprender a amar como Cristo ama. Tal como os setenta discípulos enviados por Jesus levaram o Evangelho aos povos, também a espiritualidade do Imaculado Coração continua a ser uma missão universal de conversão, reparação, paz e esperança.

 

Cem anos depois do início do Ciclo Cordimariano, a mensagem permanece surpreendentemente atual. O Imaculado Coração continua a apontar para Cristo, a pedir oração e conversão, e a recordar que o futuro da humanidade passa sempre pelo encontro com Deus. Aí reside, talvez, o segredo mais profundo de Fátima.

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

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