DECÁLOGO: «O mundo continua sem Deus»

Decálogo 29 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 15

Nasceram do coração da Mensagem de Fátima, da espiritualidade reparadora e do desejo de “consolar Deus”, inspirado pelo venerável Padre Manuel Nunes Formigão. Cem anos depois da fundação, a Congregação das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima continua presente em Portugal, Angola, Moçambique e Timor-Leste, entre a adoração eucarística, o acolhimento, a missão e a divulgação da Mensagem de Fátima. Num tempo de grandes mudanças sociais e religiosas, o centenário surge como ocasião de memória, renovação e futuro. Nesta entrevista da rubrica Decálogo, a Irmã Maria Armandina Neto fala da identidade reparadora, do Lausperene em Fátima, da missão pelo mundo e dos desafios da vida consagrada no século XXI. (reparadorasfatima.pt)

 

1. Centenário

 

Sérgio Carvalho (SC) - Cem anos depois da fundação da Congregação, que balanço faz deste caminho espiritual e missionário iniciado pelo Padre Formigão?

 

Irmã Maria Armandina Neto (MAN) - Fazer um balanço sobre um caminho espiritual e missionário parece-me uma ousadia. De facto, são caminhos cujo balanço pode ser exageradamente otimista ou demasiado pessimista já que comporta em si uma retrospetiva humana de um caminho percorrido. Creio firmemente que o Espírito sempre nos acompanhou ao longo destes 100 anos e com as nossas debilidades, tentamos titubeando, ser fiéis a esse Espírito que iluminou a visão do Venerável P. Manuel Nunes Formigão naquele longínquo dia 6 de janeiro de 2026 para a Congregação. Assim, ao longo destes 100 anos, tentamos não só fazer da missão reparadora a nossa identidade como aprofundar teologicamente o que significa este conceito. A nível missionário concretizamos em 2005 um desejo do nosso fundador que era levar a mensagem de Fátima a outros continentes.   

 

2. Fátima

 

SC - As Irmãs Reparadoras nasceram diretamente da espiritualidade de Fátima. O que significa, hoje, viver e anunciar a Mensagem de Fátima num mundo tão diferente de 1926?

 

MAN - É um facto que o mundo de hoje é diferente do mundo de 1926, mas os desafios que nos apresenta não são assim tão diferentes. Continua a ser um mundo sem Deus atrevo-me a dizer que talvez hoje, pela situação do mundo, pelos pecados da humanidade, por tudo quanto são ultrajes, sacrilégios e indiferença à dignidade da humanidade a Congregação é mais necessária e mais urgente a reparação. Por isso, viver a reparação hoje é viver nesta atitude de tudo oferecer ao Senhor. viver pondo amor onde ele não existe, ou como dizia o nosso Fundador Venerável P. Manuel Nunes Formigão reparar é amar. O anúncio passa sempre pelo testemunho e depois pela nossa presença na divulgação em tudo o que diz respeito a Fátima e à sua mensagem.

 

EUCARISTIA BODAS DE OURO (1)

 

3. Reparação

 

SC- A palavra “reparação” pode parecer difícil para muitos jovens. Como explicar, de forma simples e atual, o carisma reparador da Congregação?

 

MAN - Nós, as Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima, hoje, damos vida a este carisma e procuramos viver este espírito que o Fundador nos transmitiu lúcida e incansavelmente e que as nossas Constituições nos propõem: «A vida de reparação alimenta-se principalmente na Eucaristia, onde Jesus Cristo Se oferece pela humanidade. A participação neste mistério é o momento mais importante do nosso dia. Unidas a Cristo oferecemos diariamente ao Pai o trabalho, a oração, os sofrimentos e as alegrias por todas as pessoas. Na celebração da Eucaristia e na Adoração Eucarística recebemos a luz e a força necessárias para viver a nossa entrega generosa a Deus e ao próximo. A palavra reparação às vezes soa só a sacrifício, mas tentamos com a nossa vida desmistificar esse conceito e, como diz o nosso fundador reparar é identificar-se com Cristo, é ser dócil ao Espírito Santo é tudo oferecer pela conversão dos pecadores. Acho que esta linguagem é percetível pelos jovens.

 

4. Lausperene

 

SC - A adoração eucarística ligada ao Lausperene, no Santuário de Fátima, tornou-se uma das marcas da Congregação. O silêncio diante do Santíssimo continua a ser uma resposta para as inquietações do mundo moderno?

 

MAN - Amamos o mundo tal como ele se apresenta ao nosso olhar: fragmentado, líquido, transparente, efémero, beligerante, ruidoso… porém, cremos que, a adoração é um dinamismo espiritual que,  «Em toda a parte vê sinais de um “tempo sagrado de paz eterna”, um “grande momento de reconciliação”, uma “nova era de ouro”, um “tempo profético, miraculoso, e consolador, capaz de curar feridas e de inflamar a vida eterna”, (capaz de anunciar) uma nova época.» A adoração eucarística é a forma mais sublime de silêncio. Aí nós colocamos todas as tragédias pessoais e mundiais diante do Senhor. Não é por acaso que todos os dias recebemos pedidos de oração por email, pessoalmente e por telefone. A adoração eucarística que fazemos na Capela do Santíssimo, no Santuário de Fátima há mais de 60 anos, é expressão pública da grandeza e do valor da adoração como meio de proximidade a Deus e ao mundo. De facto, a adoração consolida em nós a fraternidade incessante, a mesma que levava os santos Pastorinhos a preocupar-se com a conversão dos pecadores, as intenções do Santo Padre, os doentes, os soldados, a paz, a situação geopolítica do mundo que eles não entenderam, mas intuíram ser decisiva para o bem comum.

 

5. Padre Formigão

 

SC - O venerável Padre Manuel Nunes Formigão foi chamado “o quarto pastorinho” de Fátima. O que é que a Igreja e Portugal ainda têm por descobrir na figura deste sacerdote?

 

MAN - Não quero exagerar, mas quase tudo. Sobretudo as virtudes que mais o caracterizam: a disponibilidade, a humildade e a sua generosidade para servir a Igreja onde fosse necessário.

 

6. Missão

 

SC - Hoje, as Irmãs Reparadoras estão presentes em vários continentes lusófonos. O que aprenderam com as missões em países como Angola, Moçambique e Timor-Leste?

 

MAN - Aprendemos que diante de outras culturas devemos ter atitude de Moisés “descalçar os sapatos” para apreender tanta riqueza cultural, a forma como somos acolhidos, a atitude diante do mistério Eucarístico, a partilha, a aceitação da sua condição e sobretudo a abertura a tudo o que seja transmissão da fé. Sinceramente quando visito as comunidades que temos nesses países eu própria venho com a minha fé fortalecida.

 

7. Juventude

 

SC - Num tempo de crise vocacional na Europa, como despertar nos jovens o desejo de uma vida entregue totalmente a Deus?

 

MAN - A nível europeu só despertamos nos jovens o desejo de entrega a Deus quando a nossa vida não passar tanto pelo fazer, mas mais pelo ser. Talvez devido a estruturas pesadas que temos, ao envelhecimento dos membros das Congregações e porque continuamos a fazer o mesmo isso representa uma sobrecarga que nos tira a capacidade de atrair jovens. Quando a nossa vida passar a ser um testemunho de que o primado de Deus é o mais importante na nossa, aí atrairemos jovens.

 

8. Mulher e Igreja

 

SC - As congregações femininas tiveram um papel decisivo na história da Igreja em Portugal. A voz das mulheres consagradas é suficientemente escutada dentro da Igreja?

 

MAN - Hoje acho que sim. Podia aqui apresentar muitas teorias que comprovam esta minha afirmação, mas prefiro falar da minha experiência pastoral. Estive 20 anos a trabalhar numa paróquia da Diocese de Braga. Fui catequista, fiz parte do Conselho Pastoral, de um grupo Sinodal e fui diretora Técnica de um Centro Pastoral e Social pertença da paróquia. Também constato que por vezes não é fácil a nossa inserção paroquial porque exige de nós alguma disponibilidade e uma mente aberta e recetiva aos dinamismos diocesanos e paroquiais. 

 

9. Futuro

 

SC - Que prioridades pastorais e espirituais gostaria de deixar como herança deste centenário para os próximos cem anos da Congregação?

 

MAN - Descobrir uma linguagem mais atual para dizer, apresentar o Carisma Reparador à sociedade de hoje, a sociedade do século XXI;

Ser Consagradas e leigos “rejuvenescidos” na forma como vivemos o carisma reparador e audazes na forma de o apresentar;

Olhar para dentro, como instituição, congregação e descobrir quais as estruturas físicas ou mentais que precisam ser “convertidas” para que possamos testemunhar mais e melhor toda a riqueza que comporta o carisma reparador;

 

Concretizar a nossa presença na igreja local através de uma maior inserção nas estruturas paroquiais e diocesanas em que estamos inseridas;

 

10. Esperança

 

SC - Se tivesse de resumir numa única mensagem aquilo que a Congregação das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima querem dizer ao mundo de hoje, qual seria?

 

MAN - Acaba de ser publicada a Carta Encíclica Magnifica humanitas que é um documento repleto de esperança. Quando nos parece que a mundividência é desastrosa o Papa Leão XIV diz-nos que a humanidade é magnifica. As Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima partilham a ideia geral da carta encíclica do Santo Padre e como Congregação cujo carisma é a reparação dizer que vale a pena entregar a nossa vida a Deus para que “ tenham vida e a tenham em abundância” (Jo.10,10).

 

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Notas Biográficas

A Irmã Maria Armandina Pimenta Neto nasceu a 8 de fevereiro de 1958, na freguesia de São Martinho do Campo, concelho de Santo Tirso, distrito do Porto. É filha de Luís Neto e de Maria Inês da Silva Pimenta. Recebeu o sacramento do Batismo no dia 16 de fevereiro de 1958 e a Confirmação a 27 de março de 1966.

Entrou na Congregação das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima no dia 2 de fevereiro de 1980. Foi admitida ao Noviciado a 9 de agosto do mesmo ano, realizando o curso elementar de Catequese durante esse período de formação. Fez a Primeira Profissão Religiosa a 12 de abril de 1982 e a Profissão Perpétua a 15 de setembro de 1991.

Ao longo do seu percurso religioso e pastoral desempenhou diversas missões e serviços em várias comunidades da Congregação. Em 1982 foi enviada para a Escola Infantil de Vila Nova de Famalicão, onde colaborou também na catequese paroquial. Em outubro de 1984 regressou à Casa de Nossa Senhora das Dores, em Fátima, assumindo diversos serviços comunitários.

Em setembro de 1985 foi colocada na Casa de São José, no Tortosendo, na Beira Baixa. Dois anos depois, em agosto de 1987, regressou a Vila Nova de Famalicão para trabalhar no Jardim Infantil e Creche-Mãe. Entre 1992 e 1994 integrou a comunidade da Casa de Nossa Senhora de Fátima, no Porto, transitando posteriormente para a Comunidade da Casa do Menino Jesus, na Covilhã.

Nos anos de 1998 e 1999 foi nomeada Mestra de Noviças, missão que voltou a exercer entre 1999 e 2002 na Casa Cónego Formigão, em Fátima, onde acumulou também os cargos de Superiora da comunidade e Diretora Técnica da Escola Infantil Jacinta Marto. Exerceu igualmente a função de Mestra de Juniores, dedicando-se à formação espiritual e humana das jovens religiosas da Congregação.

Entre 1999 e 2023 foi membro do Governo Geral da Congregação, tendo sido eleita Conselheira Geral durante esse longo período de serviço. De 2002 a 2023 desempenhou também as funções de Diretora Técnica da Creche-Mãe de Vila Nova de Famalicão.

De 3 a 11 de julho de 2023 realizou-se, na Casa Cónego Formigão, em Fátima, o XV Capítulo Geral da Congregação das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima, durante o qual a Irmã Maria Armandina Pimenta Neto foi eleita Superiora Geral da Congregação, passando desde então a residir na Casa Cónego Formigão, em Fátima.

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

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