Precisamos todos de um apagão

Cartas a uma amiga 2 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Precisamos de ficar sem nada, frágeis e desprotegidos

Precisamos nos desligar do que tomamos como certo e garantido.

Precisamos de ficar às escuras para se nos abrirem os olhos para o essencial.

Precisamos de nos sentir sós para valorizar as pessoas que temos.

Precisamos? Será que precisamos mesmo, de deixar de ter, para dar valor?

Se sim, parece-me que algo está errado à nascença.

 

A nossa sociedade tem vivido alguns apagões que nos dão um choque momentâneo de “vai tudo ficar bem” ou “ agora vamos ser melhores”, mas não me parece que essas promessas sejam cumpridas. Parece-me que rapidamente passa essa vontade de ser melhor, mais atento, preocupado e diligente para dar lugar a um argumento egoísta de: “já passei tanto, agora vou aproveitar!”

 

Quem o era, antes do apagão, continua a ser.

 

Quem o era, antes da perda, pode ter de se isolar, mas rapidamente volta ao que era.

 

Agora, quem não foi, quem não é, pode ainda vir a ser mas, nem sempre se pode esperar por acontecimentos trágicos para começar essa mudança.

 

Todos precisamos de um apagão, mas não podemos esperar que ele nos salve ou que nos abra os olhos. Precisamos de começar mais cedo a perceber e a agir de acordo com o que vemos, ou melhor de Quem vemos.

 

Podemos aguardar a vida toda para mudar algo que sabemos que queremos mudar.

Podemos querer valorizar mais o que temos, mas estamos agarrados ao passado.

Podemos agradecer mais, mas estamos acomodados.

Podemos ser mais gentis, mas esperamos que primeiro sejam gentis connosco.

 

E esperamos, esperamos e esperamos. Um dia acontece um apagão e não estávamos à espera. Ficamos maravilhados, assustados e comprometidos, mas será que alguma coisa verdadeiramente muda?

 

E tu amiga, de que apagão estás à espera?

Raquel Rodrigues

Cronista "Cartas a uma amiga"

Raquel Rodrigues nasceu no último ano da década 70 do século passado. Cresceu em graça e em alguma sabedoria, sendo licenciada em Gestão, frequenta o mestrado em Santidade: está no bom caminho!

Aproveita cada oportunidade para refletir sobre os sentimentos que as relações humanas despertam e que, talvez, sejam comuns a muitas pessoas. A sua escrita é fruto da vontade de partilhar os seus estados de alma com a “amiga” que pode bem ser qualquer pessoa que leia com disposição cada uma das suas cartas.

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