A dor torna-nos mais sábios

Cartas a uma amiga 21 março 2026  •  Tempo de Leitura: 3

Ninguém gosta de sofrer, de passar dificuldades e de provações. Ninguém gosta de contar o dinheiro ao fim do mês, de se sentir injustiçado e só. Ninguém gosta de perder quem ama, de viver em guerra e conflito constante. Ninguém…

 

Mas há algo no processo do sofrimento que nos transforma e atrevo-me a dizer: Torna-nos mais sábios!

 

Podemos achar que já vivemos muito e sentimos dores terríveis, mas sempre que a vida nos apresenta uma contrariedade somos novamente postos à prova. Reclamamos, questionamos Deus, zangamos-nos contra o mundo e contra os nossos mas, no fim acabamos por resistir e seguir caminho com uma resiliência ímpar.

 

Nesse processo, somos convidados, sem que às vezes tenhamos consciência disso, a olhar o mundo de uma maneira diferente. Olhamos para o que nos rodeia com novos olhos e nem sempre de amor. A raiva e a revolta podem toldar-nos a mente, mas no fim, se quisermos, o amor sobressai e manifesta-se através de nós. Podes estar num momento complicado, mas se vires alguém pior do que tu, és bem capaz de tirar a única camisola que te resta.

 

És capaz de reconhecer em ti sentimentos que outrora não tinhas sentido ou prestado a atenção. A dor pode endurecer o nosso coração, apenas para proteger temporariamente o que de precioso queremos guardar: a nossa dignidade.

 

No processo da dor, podes zangar-te com todos, e em especial contigo e questionar: Porque eu Senhor?!

 

Não é fácil olhar para o sofrimento como aprendizagem, mas é ele que nos permite reconhecer os nossos limites, forças e âncoras.

 

Conheço algumas pessoas que estão a passar o “inferno” na sua vida, mas que se recusam baixar os braços e querem assumir a sua dor sem pieguices mas como um exemplo de humanidade para os outros. Sim, quem sofre consegue sempre ver o bom onde para outros é rotina. Reconhece melhor do que ninguém os gestos de amor e empatia, agarra-se com unhas e dentes ao que os outros dão e são, nem que seja apenas uma mensagem ou um gesto de Luz.

 

Se pudesses afastar esse “cálice” de ti, sei que o farias, eu também, mas se tiveres que beber dele acredita que há algo a transformar-se e em ti e que será um exemplo para tantos.

 

Que a tua dor encontre o amparo e a capacidade de reconhecer que és mais sábia do que antes.

 

E tu amiga, o que tem aprendido com a dor?

Raquel Rodrigues

Cronista "Cartas a uma amiga"

Raquel Rodrigues nasceu no último ano da década 70 do século passado. Cresceu em graça e em alguma sabedoria, sendo licenciada em Gestão, frequenta o mestrado em Santidade: está no bom caminho!

Aproveita cada oportunidade para refletir sobre os sentimentos que as relações humanas despertam e que, talvez, sejam comuns a muitas pessoas. A sua escrita é fruto da vontade de partilhar os seus estados de alma com a “amiga” que pode bem ser qualquer pessoa que leia com disposição cada uma das suas cartas.

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