O caminho de Samuel: CINZAS NO ECRÃ (Quarta-Feira de Cinzas)

Conto 18 fevereiro 2026  •  Tempo de Leitura: 1

Samuel saiu do metro com o telemóvel na mão, a percorrer distraidamente as últimas notificações. Notícias, mensagens, anúncios, tudo a disputar a sua atenção. A cidade movia-se em ritmo acelerado e ele sentia-se arrastado por essa corrente constante.

 

Entrou na igreja quase sem perceber porquê. Estava a decorrer a eucaristia da 4.ª feira de Cinzas. Talvez procurasse apenas um intervalo no meio da pressa. O silêncio acolheu-o como um espaço estranho, quase desconfortável. Sentou-se. Pela primeira vez naquele dia, não tinha nada para fazer.

 

Quando se aproximou para receber as cinzas, sentiu o peso simbólico daquele gesto antigo. A cruz traçada na sua testa não era apenas um sinal - era um convite à verdade. “És pó…, mas és pó amado por Deus.” A frase ficou a ecoar dentro dele. Não era uma ameaça; era uma promessa.

 

O padre colocou-lhe uma pequena ampola com cinzas na mão. Samuel segurou-a com cuidado, sem perceber ainda o seu sentido. Ao sair da igreja, voltou ao ruído da cidade, mas algo tinha mudado. Já não se sentia apenas um entre muitos. Sentia-se visto.

 

Nessa noite, sonhou que as cinzas que guardara se espalhavam pela cidade e faziam brotar vida onde antes só havia aridez e dureza. Acordou com uma certeza inesperada: Deus não vinha julgar a sua fragilidade, vinha habitar nela.

 

A Quaresma começava assim, não como um tempo de culpa, mas como um caminho de verdade e de esperança.

 

Pergunta para rezar:

👉 Que partes da minha vida tenho medo de mostrar a Deus?

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

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