DomingoGordo e DomingoMagro: memória viva de um antigo ritmo litúrgico
Entre o ruído do Carnaval e o silêncio das Cinzas corre uma linha de história, fé e cultura que muitas vezes passa despercebida. Essa linha liga dois nomes populares — Domingo Gordo e Domingo Magro — a um antigo calendário litúrgico da Igreja Católica: o Tempo da Septuagésima. Mais do que curiosidade folclórica, estes nomes guardam uma pedagogia espiritual que moldou séculos de vivência cristã no Ocidente.
Um “vestíbulo” da Quaresma
Antes da reforma litúrgica de 1969, o ano cristão não passava abruptamente do tempo comum para a Quaresma. Havia uma preparação remota composta por três domingos: Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima — cerca de 70, 60 e 50 dias antes da Páscoa.
Nestes domingos, a liturgia já começava a mudar de tom: desaparecia o Glória, calava-se o Aleluia — canto tipicamente pascal e jubiloso — e este era substituído pelo Tracto, um canto bíblico mais sóbrio, sem refrão, de melodia longa e grave. Enquanto o Aleluia exprime exultação e vitória, o Tracto traduz súplica, espera e confiança sofrida; não celebra ainda, mas caminha em esperança. Ao mesmo tempo, os ministros passavam a usar paramentos roxos, cor litúrgica da penitência, da conversão e da expectativa, sinal visível de que a Igreja já entrava num tempo de recolhimento interior. Os textos bíblicos falavam de combate espiritual, conversão e vigilância. Era como se a Igreja convidasse os fiéis a descerem gradualmente do “cume festivo” para o “vale penitencial” da Quaresma.
Este ritmo lento educava os sentidos e o coração: a alegria não era negada, mas tornava-se mais contida; a festa não era abolida, mas relativizada à luz da conversão.
A tradição popular da Septuagésima: o Enterro do Aleluia
A mudança litúrgica da Septuagésima não ficou apenas nos livros ou no altar — ganhou expressão simbólica nas comunidades. Em muitos lugares celebrava-se o Enterro do Aleluia, um ritual popular que marcava o início do tempo de sobriedade.
Como o Aleluia desaparecia do canto litúrgico até à Vigília Pascal (cedendo lugar ao Tracto), o povo dramatizava essa “ausência” com procissões brincalhonas, cortejos ou pequenas encenações em que o Aleluia era simbolicamente “enterrado” ou guardado num cofre até à Páscoa. Não era tristeza sem esperança; era uma pedagogia visual: a alegria pascal ficava em espera para regressar transfigurada na Ressurreição.
Este gesto mostrava, de forma simples e comunitária, que a Septuagésima já era tempo de passagem: menos festa, mais interioridade; menos ruído, mais escuta.
Do altar à mesa: nasce o “Gordo”
Foi na Quinquagésima, último domingo antes da Quarta-feira de Cinzas, que a cultura popular cunhou o nome Domingo Gordo. A teologia dizia “preparação”; o povo dizia “despedida”.
Sabendo que o jejum e a abstinência estavam à porta, as comunidades faziam grandes refeições, partilhavam carne e doces, organizavam bailes e brincadeiras de Carnaval. Era o auge da abundância antes da sobriedade. O “gordo” não era apenas alimentar — era simbólico: excesso de vida, de riso, de corpo, de ruído.
Neste sentido, o Domingo Gordo não era um protesto contra a Igreja, mas um prolongamento da sua pedagogia: festejar conscientemente para jejuar conscientemente.
Carnaval, Entrudo e o “Adeus às carnes”
No calendário popular, o Carnaval (ou Entrudo) ocupa o lugar do antigo Domingo Gordo, prolongando-se pela Segunda e Terça-feiras de folia como um derradeiro transbordar de alegria antes das Cinzas. O próprio nome Carnaval costuma ser explicado como vindo de “carne vale” — “adeus à carne”, expressão que dá sentido ao ritual do “Adeus às carnes” celebrado na Terça-feira de Carnaval: um último banquete de pratos ricos e carnais antes de entrar na disciplina quaresmal do jejum e da abstinência. Assim, Carnaval/Entrudo funciona como a porta de saída da abundância, enquanto o Domingo Magro se torna a porta de entrada na sobriedade espiritual da Quaresma.
A travessia das Cinzas
Na Quarta-feira de Cinzas, tudo muda. A cinza na testa recorda a fragilidade humana e a urgência da conversão. Começa a Quaresma: quarenta dias de oração, jejum e caridade.
É aqui que surge o Domingo Magro — o Primeiro Domingo da Quaresma. O adjetivo “magro” traduz na linguagem do corpo o que a liturgia expressa no espírito: simplicidade, contenção, desapego. As mesas tornam-se mais pobres, as festas cessam, e as práticas devocionais intensificam-se — sobretudo a Via-Sacra.
O contraste é pedagógico: depois do barulho do Gordo, vem o silêncio do Magro; depois da fartura, a sobriedade; depois da máscara, a verdade do rosto marcado pelas cinzas.
O desaparecimento do calendário — mas não da memória
O calendário reformado suprimiu o Tempo da Septuagésima para simplificar o ano litúrgico. Contudo, os nomes Domingo Gordo, Domingo Magro, o Carnaval/Entrudo e mesmo o eco do Enterro do Aleluia sobreviveram na linguagem e nos costumes populares, sobretudo em Portugal e em países de tradição católica.
Eles recordam que a fé não é apenas doutrina, mas ritmo de vida: festa que prepara a penitência e penitência que purifica a festa. Mostram também como a liturgia moldou costumes, comidas, sociabilidades e imaginários.
Uma lição atual
Num mundo de excessos permanentes — onde cada dia parece “Domingo Gordo” — a antiga pedagogia cristã ganha nova relevância. Ela ensina que a alegria precisa de medida e que o jejum devolve sabor à festa. Ensina que não se pode viver só de ruído, nem só de silêncio, mas de uma alternância sábia entre ambos.
Talvez por isso estes símbolos continuem vivos: porque lembram que a vida humana oscila entre abundância e austeridade — e que a fé cristã convida a atravessar esse movimento com consciência, esperança e conversão.
Entre o Gordo e o Magro, passando pela Septuagésima, pelo Tracto e pelo Enterro do Aleluia, desenha-se a própria condição humana — e o caminho da Páscoa.