A Luz Guardada
Naquela manhã fria de fevereiro, a aldeia acordou mais cedo do que o costume. O sino tocou diferente — não chamava para pressas nem para lutos, mas para luz. Era o dia da Apresentação do Senhor, quarenta dias depois do Natal, e toda a gente sabia: era dia da Senhora das Candeias.
Dizia-se desde sempre que, naquele dia, o ciclo do Natal se fechava por completo. As luzes do presépio, acesas desde a Noite Santa, começavam a despedir-se devagar.
Maria do Carmo levantou-se ainda antes do sol. A cozinha cheirava a lenha húmida e a café fraco. Em cima da mesa, alinhadas como pequenas sentinelas, estavam as velas que levaria à igreja. Eram simples, de cera amarelada, feitas ali mesmo, anos antes, por mãos que já tinham partido. Passou-lhes os dedos devagar, como quem reza sem palavras.
— Hoje faz quarenta dias — murmurou.
— Como manda a Lei… e como manda o costume.
Lembrou-se do que aprendera desde pequena: quarenta dias depois do nascimento, Maria sobe ao Templo para a Purificação, não por precisar de ser purificada, mas por fidelidade à Lei de Moisés. Não se impõe, não se distingue, não reclama exceções. Vai como as outras mulheres, levando o Filho e oferecendo o que os pobres podiam oferecer.
— Se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir; se chorar, está para o inverno está para acabar — acrescentou, repetindo o provérbio antigo.
Lá fora, o céu estava indeciso, nem sol nem chuva, como se também ele aguardasse o sinal.
Na igreja, o frio entrava pelas pedras antigas, mas havia uma claridade diferente. As pessoas chegavam em silêncio respeitoso, cada uma com a sua vela, algumas novas, outras tortas, todas carregadas de intenções. Quando o padre começou a bênção, uma chama passou à outra, e em poucos segundos a igreja encheu-se de pequenos sóis tremeluzentes.
Enquanto segurava a vela acesa, Maria do Carmo voltou à cena do Evangelho. Viu Maria e José subindo os degraus do Templo. José levava nas mãos uma gaiola com duas pombas brancas, a oferta dos pobres, o sacrifício humilde permitido a quem não tinha cordeiros nem ouro. Pombas simples, vivas, inquietas — como inquieta era agora a chama da vela.
Ali estava tudo: a Purificação de Maria, a Apresentação do Menino, a obediência silenciosa de José, a pobreza que não envergonha. Nada de grandioso aos olhos do mundo, mas tudo inteiro diante de Deus.
Durante a procissão, a cera começou a escorrer-lhe pela mão, quente, quase dolorosa. Não a afastou. Sempre aprendera que a luz também custa, mas aquece.
Pensou então em Simeão, velho e cansado, tomando o Menino nos braços e reconhecendo-O como luz para iluminar as nações. Pensou como essa luz, apresentada naquele dia no Templo, continuava a ser apresentada ali, naquela aldeia, cada vez que uma vela se acendia no meio do inverno.
No regresso a casa, antes do almoço, Maria do Carmo fez o que fazia todos os anos. Aproximou-se do presépio. Tocou de leve nas figuras gastas: o Menino, Maria, José, os pastores. Não era um gesto triste, mas solene. No dia das Candeias, o presépio recolhe-se. O Natal cumpre o seu tempo, como tudo o que é verdadeiro.
Guardou as figuras numa caixa de madeira, com cuidado, como quem sabe que voltará a precisar delas.
Depois, colocou a vela das Candeias atrás da imagem do Sagrado Coração. Não era para acender já. Ficaria ali para os dias difíceis: uma trovoada forte, uma doença inesperada, uma noite demasiado escura. A vela das Candeias não era só cera — era promessa, era memória, era fé guardada.
À tarde, o céu abriu-se um pouco. Um raio de sol atravessou as nuvens e bateu na vidraça da cozinha. Maria do Carmo sorriu.
— Afinal, a Senhora riu — disse para ninguém.
E, enquanto o inverno começava lentamente a recolher-se, ficou a certeza antiga e teimosa, passada de geração em geração como as velas e os presépios: há uma luz que sabe esperar, que não faz barulho, que se apresenta no tempo certo — quarenta dias depois do Natal, quando o mundo já parece ter esquecido o mistério.