Maria Droste inspirou fundação do Colégio Português de Roma
A tradição histórica atribui à Beata do Bom Pastor uma influência espiritual decisiva junto dos Viscondes de São João da Pesqueira, promotores da instituição fundada em 1900.
A história da Igreja é feita de pontes invisíveis. Algumas unem lugares distantes, outras aproximam gerações. Há mais de um século, uma dessas pontes nasceu no Convento do Bom Pastor de Vale Formoso, no Porto, atravessou Roma através do Pontifício Colégio Português e continua hoje viva em Ermesinde, junto das relíquias da Beata Maria do Divino Coração.
No centro desta história encontramos uma religiosa alemã, um casal de benfeitores portugueses, uma instituição romana destinada à formação do clero e uma obra sacerdotal que marcaria a vida de centenas de jovens portugueses.
A missão recebida em Vale Formoso
Em 1894, a Madre Maria Droste zu Vischering chegou ao Convento do Bom Pastor de Vale Formoso, em Paranhos. Foi ali que viveu os últimos anos da sua vida religiosa e onde recebeu as locuções interiores que a tornariam conhecida em toda a Igreja.
Segundo os seus escritos, Jesus pediu-lhe que solicitasse ao Papa Leão XIII a consagração do mundo inteiro ao Seu Sagrado Coração. O pedido parecia extraordinário, mas a religiosa perseverou e escreveu ao Santo Padre.
Após um período de discernimento, Leão XIII acolheu a mensagem e publicou, em 1899, a encíclica Annum Sacrum, determinando a consagração do género humano ao Sagrado Coração de Jesus. O próprio Papa viria a considerar esse ato como o mais importante do seu pontificado.
A 8 de junho desse mesmo ano, a Madre Maria Droste faleceu no Porto. Três dias depois realizava-se a consagração pela qual tanto tinha trabalhado e rezado.
Os Viscondes e o sonho do Colégio Português
Entre aqueles que acompanharam estes acontecimentos encontravam-se D. Luís Maria de Sousa Vahia Rebelo de Morais, 2.º Visconde de São João da Pesqueira, e sua esposa, D. Maria do Carmo de Sousa Holstein.
Profundamente ligados à Igreja e à Santa Sé, os Viscondes tornaram-se dos principais impulsionadores da criação do Pontifício Colégio Português em Roma. A tradição histórica do próprio Colégio refere que atribuíram à Beata Maria do Divino Coração uma inspiração decisiva para a concretização da obra e para a sua consagração ao Sagrado Coração de Jesus.
Assim, o Colégio Português, fundado em 1900, nasceu num ambiente profundamente marcado pela espiritualidade cordicordiana promovida por Leão XIII e pela missão da religiosa de Vale Formoso.
Durante mais de um século, milhares de sacerdotes portugueses passaram por aquela instituição romana, fortalecendo os laços entre Portugal e a Sé de Pedro.
De Roma para Ermesinde
Mas a história não termina em Roma.
Depois da beatificação da Madre Maria do Divino Coração por Paulo VI em 1975, cresceu o interesse pela sua vida e pela sua mensagem espiritual. Com o passar dos anos, a devoção à Beata encontrou um novo centro em Portugal.
Hoje, as suas relíquias repousam na Igreja do Bom Pastor, em Ermesinde, tornando aquele templo um dos mais importantes lugares de memória ligados à sua vida e espiritualidade.
Ali se conserva viva a recordação da religiosa que ajudou a inspirar um dos maiores atos do pontificado de Leão XIII e que influenciou, ainda que indiretamente, a fundação do Colégio Português de Roma.
A dedicação da Capela da Casa da Beata Maria Droste por D. Manuel Linda veio reforçar ainda mais esta herança espiritual, fazendo de Ermesinde um lugar de peregrinação para todos aqueles que desejam aprofundar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
A visão de D. Florentino
Esta herança encontrou uma expressão particularmente significativa através de D. Florentino Andrade e Silva.
Bispo auxiliar do Porto e figura marcante da formação sacerdotal portuguesa do século XX, D. Florentino fundou em Ermesinde o Seminário do Bom Pastor. Mais do que uma simples instituição educativa, o Seminário pretendia formar jovens segundo o modelo do Bom Pastor, inspirado no Coração de Cristo.
Não deixa de ser significativo que esta obra tenha surgido precisamente junto da Igreja do Bom Pastor e da memória espiritual da Beata Maria Droste. Embora separadas por décadas, ambas as iniciativas partilham a mesma inspiração: colocar Cristo, Bom Pastor e Sagrado Coração, no centro da formação cristã.
Ao longo de várias gerações, centenas de rapazes passaram por aquele Seminário, onde receberam uma sólida formação humana, cultural e espiritual.
Uma história que continua
Também eu tive a graça de ser aluno do Seminário do Bom Pastor.
Ao olhar para esta história, descubro uma cadeia de acontecimentos que dificilmente poderia imaginar quando entrei naquelas salas de aula. Uma religiosa alemã em Vale Formoso. Um Papa em Roma. Um Visconde português que ajuda a fundar o Colégio Português. Um Bispo do Porto que cria um seminário em Ermesinde. E gerações de jovens que ali encontraram um caminho de crescimento humano e espiritual.
Percebemos então que a história da Igreja não é feita apenas de datas e documentos. É feita de pessoas que acolhem uma inspiração e a transformam em obra.
Da cela de uma religiosa em Vale Formoso nasceu uma corrente espiritual que chegou ao Vaticano, inspirou a fundação do Pontifício Colégio Português e continua viva em Ermesinde, junto das relíquias da Beata Maria do Divino Coração.
Uma história que une Porto, Roma e Ermesinde. Uma história de fé, de formação e de esperança. Uma história que continua.