Entre Mordor e Babel – Os Senhores da Guerra

Notícias 19 abril 2026  •  Tempo de Leitura: 6

A conferência de 17 de abril, nas Jornadas da Comunicação do Santuário de Fátima, subordinada ao tema “A comunicação como instrumento para a paz”, acabou por oferecer mais do que um conjunto de intervenções: revelou um mapa fragmentado do mundo contemporâneo, onde a palavra já não une, mas alimenta a disputa. Um verdadeiro conselho de war lords discursivos, onde cada intervenção parecia menos uma peça de comunhão e mais um território a defender.

 

O núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, falou não como estratega, mas como quem observa o campo de batalha com desconforto moral. E foi talvez o mais incisivo — quase profético — ao denunciar o ruído contemporâneo: “A media não estava a escutar este Papa…”, isto a propósito do conflito entre Washington e o Vaticano. A frase não é apenas crítica mediática; é um diagnóstico civilizacional. Num mundo saturado de som, o problema já não é falar, é escutar.

 

Mais ainda, deixou uma provocação que muitos jornalistas talvez prefiram contornar: “Este Papa (Leão XIV) não é feito para jornalistas”. Não por inadequação, mas por excesso de exigência. Um Papa que não cabe no ciclo noticioso, nem se reduz a soundbites, torna-se um corpo estranho numa cultura mediática que vive da simplificação.

 

E, no entanto, o núncio não se refugiou numa espiritualidade evasiva. Pelo contrário, afirmou com desassombro, a propósito da escolha do cardeal Prevost para Papa: “Estou convencido que o Espírito Santo não é estúpido”. A ironia é quase bíblica e lembra-nos que a história não é um acidente caótico, mesmo quando os seus protagonistas parecem agir como senhores da guerra. Talvez por isso tenha alertado: “O mundo está a mudar de uma maneira perigosa” e, mais ainda, que “atacar uma civilização é uma declaração imoral e perigosa”.

 

Num tempo em que a guerra se reinventa com novas justificações, a sua afirmação foi particularmente contundente: “Acabou o conceito de guerra justa para o argumento da guerra preventiva”. Aqui, a linguagem aproxima-se perigosamente do universo de J. R. R. Tolkien — como se estivéssemos perante líderes que, tal como em O Senhor dos Anéis, já não procuram a justiça, mas a legitimação do poder.

 

E os números não ajudam à inocência: em “2024: 2700 bilhões de dólares” foram gastos em armamento. Um investimento digno de Mordor, não de um mundo que se pretende civilizado. Aqui, os war lords deixam de ser metáfora e tornam-se realidade orçamental.

 

Mas talvez a chave de leitura mais profunda tenha surgido numa frase quase escondida: “Para se poder mediar tem de se ter autoridade moral”. Num mundo de Babel, onde todos falam e ninguém compreende, a autoridade já não se impõe pela força nem pela visibilidade, mas pela coerência. Sem ela, qualquer tentativa de mediação é apenas mais um discurso entre ruídos.

 

A metáfora da Torre de Babel, aliás, não foi acidental. É o espelho do nosso tempo: multiplicação de linguagens, fragmentação de sentidos, incapacidade de comunhão. Uma humanidade que constrói alto… mas comunica mal. Ou seja, precisamente o contrário do ideal proposto: fazer da comunicação um verdadeiro instrumento de paz.

 

O antigo embaixador da União Europeia nos Estados Unidos da América, João Vale de Almeida, trouxe a política para dentro deste cenário — e não com diplomacia neutra. A sua leitura de Donald Trump foi direta: “Revela níveis muito baixos de decência” e “pouca inteligência política tendo em conta a influência da Igreja Católica nos EUA”. Mas, curiosamente, recusou a simplificação: “Há mais América para lá do senhor Trump”. Assim, mesmo no meio do ruído, há ainda espaço para nuance — algo cada vez mais raro na comunicação contemporânea.

 

Por fim, o padre Angelo Romano, membro do Departamento de Relações Internacionais da Comunidade de Sant'Egidio, trouxe o discurso de volta ao essencial, quase como um hobbit no meio de generais. Sem aparato, mas com clareza: “Há uma ignorância daquilo que o Papa diz”. Não por falta de acesso, mas por falta de disposição para escutar. E deixou talvez a frase mais simples — e mais devastadora — de toda a jornada: “É muito fácil incendiar uma sociedade e muito difícil construir”.

 

E eis-nos de novo em Tolkien. O problema nunca foi destruir — isso até os orcs fazem com eficiência. O verdadeiro desafio é construir comunidade, sustentar alianças, preservar a verdade no meio do caos.

 

Se a comunicação contemporânea se tornou um campo de batalha entre war lords discursivos e uma nova Torre de Babel digital, então Fátima — lugar de silêncio e mensagem — tem aqui uma missão inesperada: recordar que comunicar não é dominar, mas servir. É um farol para os tempos que correm.

 

Porque, no fim, não será o mais forte nem o mais ruidoso a prevalecer. Será aquele que ainda souber escutar… e falar uma língua que todos compreendam.

Sérgio Carvalho

Cronista

Professor e Jornalista (CP 7993)

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