A água de um rio não nos serve de ponte, mas une as margens. É uma questão de perspectiva. Uns verão uma divisória, outros uma interface. Mas cada um poderá perguntar-se: o que vejo eu?
São Francisco viu algo na água. Talvez tenha feito uma experiência profunda com essa porque no Cântico das Criaturas diz — «Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é tão útil, humilde, preciosa e casta.» — Reconhece-a como parte da família da criação chamando-lhe de irmã. — «Estamos unidos por laços invisíveis.» (Laudato Si’, 89) — Significa que algo se moveu entre São Francisco e a água, de tal modo que, através de uma misteriosa comunhão, ambos se transformaram.
Poderíamos ver a água como a irmã que nos mostra a possibilidade de unir as margens. Faz a sua parte, criando as condições para que façamos a nossa. Pois, se não estivesse ali presente, bastaria caminhar até à outra margem. Ao fazer-se presente, a água que flui pelo rio exige naturalmente de nós, a criatividade para construir uma ponte que une as margens. Essa é a nossa parte. Na sequência daquilo que o Papa Francisco nos diz na Fratelli Tutti (FT), a água impele-nos a «procurar pontos de contacto, lançar pontes.» (216) — A água e a ponte perfazem uma beleza naturo-cultural que sinaliza a paz entre as margens. Mas não se esgota aqui a potência da água como motora concreta da paz.
Nas comunidades Zulu da África do Sul, a água é a mediadora no ukethelelana amanzi, um ritual de reconciliação entre pessoas inimigas que lavam mutuamente as suas mãos. Com este gesto concreto, reconhecem como a água lava a divisão e a cólera entre as pessoas, criando uma ponte relacional que renova os corações. A água ajuda-nos a ser «artesãos de paz.» (FT 225).
As pontes são expressões culturais humanas que permitem um algo mais para além da união das margens. São sinal da possibilidade de construir a seguir diálogos como vias para a paz. — «Tudo isto se resume no verbo “dialogar”.» (FT 198) — O diálogo é uma capacidade humana que humaniza os nossos encontros, sobretudo os mais difíceis. No diálogo não temos de chegar à mesma conclusão, mas compreender melhor o nosso ponto de vista com a perspectiva do outro, e reciprocamente.
E interiorizemos as implicações de cuidarmos do relacionamento com a água. Quais são essas implicações? A responsabilidade de construir pontes como artesãos da paz e profetas do diálogo. Uma responsabilidade que gera entre nós reconciliação e uma cultura do encontro.