Construir Pontes

Crónicas 24 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 3

A água de um rio não nos serve de ponte, mas une as margens. É uma questão de perspectiva. Uns verão uma divisória, outros uma interface. Mas cada um poderá perguntar-se: o que vejo eu?
 
 
São Francisco viu algo na água. Talvez tenha feito uma experiência profunda com essa porque no Cântico das Criaturas diz — «Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é tão útil, humilde, preciosa e casta.» — Reconhece-a como parte da família da criação chamando-lhe de irmã. — «Estamos unidos por laços invisíveis.» (Laudato Si’, 89) — Significa que algo se moveu entre São Francisco e a água, de tal modo que, através de uma misteriosa comunhão, ambos se transformaram.
 
 
Poderíamos ver a água como a irmã que nos mostra a possibilidade de unir as margens. Faz a sua parte, criando as condições para que façamos a nossa. Pois, se não estivesse ali presente, bastaria caminhar até à outra margem. Ao fazer-se presente, a água que flui pelo rio exige naturalmente de nós, a criatividade para construir uma ponte que une as margens. Essa é a nossa parte. Na sequência daquilo que o Papa Francisco nos diz na Fratelli Tutti (FT),  a água impele-nos a «procurar pontos de contacto, lançar pontes.» (216) — A água e a ponte perfazem uma beleza naturo-cultural que sinaliza a paz entre as margens. Mas não se esgota aqui a potência da água como motora concreta da paz.
 
 
Nas comunidades Zulu da África do Sul, a água é a mediadora no ukethelelana amanzi, um ritual de reconciliação entre pessoas inimigas que lavam mutuamente as suas mãos. Com este gesto concreto, reconhecem como a água lava a divisão e a cólera entre as pessoas, criando uma ponte relacional que renova os corações. A água ajuda-nos a ser «artesãos de paz.» (FT 225).
 
 
As pontes são expressões culturais humanas que permitem um algo mais para além da união das margens. São sinal da possibilidade de construir a seguir diálogos como vias para a paz. — «Tudo isto se resume no verbo “dialogar”.» (FT 198) — O diálogo é uma capacidade humana que humaniza os nossos encontros, sobretudo os mais difíceis. No diálogo não temos de chegar à mesma conclusão, mas compreender melhor o nosso ponto de vista com a perspectiva do outro, e reciprocamente.
 
E interiorizemos as implicações de cuidarmos do relacionamento com a água. Quais são essas implicações? A responsabilidade de construir pontes como artesãos da paz e profetas do diálogo. Uma responsabilidade que gera entre nós reconciliação e uma cultura do encontro.
 

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Aprende quando ensina na Universidade de Coimbra. Procurou aprender a saber aprender qualquer coisa quando fez o Doutoramento em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico. É membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado é Tempo 3.0 - Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo e em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.
 
 
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