A Terra é um navio solitário no meio da vastidão negra do cosmos. Quando a astronauta Christina Koch da Artemis II partilhava, emocionada, a sua experiência de contemplar aquele ponto azul, faz uma longa pausa antes de voltar-se para a audiência e dizer — «Todos somos uma única tripulação.»
A Artemis II é a mais recente missão da agência espacial americana NASA, em colaboração com a agência espacial canadiana, que trabalhou arduamente para dar mais um passo no caminho de retorno da humanidade à Lua. A missão consistia em sobrevoar a Lua, sem aterrar, e voltar à Terra. Contudo, a trajectória levou estes quatro humanos, Reid, Victor, Christina e Jeremy, a viajar mais longe do planeta, do que alguma vez algum humano viajou. E nas primeiras palavras do comandante da missão, Reid Wiseman, quando tiveram a primeira conferência após o regresso, todos sonhavam com a Lua quando partiam, mas uma vez que se deram conta de quão longe estavam da Terra e daqueles que amavam, desejavam ardentemente voltar.
«Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.» — escreve Fernando Pessoa, e quando penso em tudo o que os astronautas partilham, depois de estarem longe, sistematicamente vejo escrito ou oiço quando falam, da impressão que têm de como o espaço e o afastamento levam-nos a experimentar a proximidade real que temos uns dos outros quanto contemplamos a Terra de longe.
Somos uma só tripulação e poderíamos ir mais longe, e dizer, somos uma só família da criação.O nosso planeta azul contém uma diversidade tal de vida em tão pouco espaço cósmico que devia levar-nos a pensar na futilidade de tudo aquilo que nos divide e separa uns dos outros. As três palavras que orientaram a partilha do astronauta canadiano Jeremy Hansen foram gratidão, alegria e a última ... amor. Ao olhar para a desinibição com que aquela tripulação se abraçava sem se importar com o que iriam pensar aqueles que os aplaudiam, mostrava aquilo que imagino ter tocado Tertuliano ao escrever sobre os primeiros cristãos — «Vede como eles se amam uns aos outros.»
Qual o motivo para todos os milhares de milhões gastos com esta viagem? Serão os recursos materiais que existem na Lua? Será a possibilidade da Lua se tornar o ponto de apoio para maiores viagens espaciais pelo nosso sistema solar? Nada disto esteve presente no discurso dos astronautas que falava com o coração.
É verdade que o discurso dos astronautas não podia ser senão emotivo, e muitas pessoas poderá focar-se apenas no génio humano que lhes permitiu mergulhar nas profundezas do cosmos, mas o que o astronauta Victor Glover deu, claramente, a entender que eles não eram o centro daquele feito, mas Deus, em quem depositaram toda a sua confiança.
Será preciso ir ao espaço para reconhecer que a vontade de Deus, o que Ele quer, é que tomemos consciência de sermos todos, em tudo, uma só família da criação, onde o amor é o que verdadeiramente nos une? Aparentemente.