Os diques que funcionam como fusíveis rebentam. Os morros de terra perto de casas derramam-se em lamacentos rios e ameaçam o desabar de um prédio. Demasiada chuva. Demasiada água, mas não vem depois da tempestade a bonança?
A água é um elemento essencial à vida. O movimento da água estrutura e torna-se fonte de vida nova. A terra seca sem plantas, sem vida, após receber da chuva a água que vivifica, transforma-se e enche-se de flores.
Neste momento vemos apenas o efeito destrutivo causado por demasiada água, mas em breve, quando o vento amainar e o céu azul aparecer com o Sol a brilhar, a relação entre a água e a energia solar será o berço de vida nova. O verde voltará mais depressa a habitar a terra queimada pelos fogos. Demasiada água poderá ser o sinal de vida, nunca em demasia.
Portugal é uma terra cheia de contrastes. Temos dos piores incêndios que produzem a cinza que aduba a terra. Temos as piores chuvas que apagam qualquer fogo e enchem a terra da água, que junto da cinza, se torna terra fecunda. Também a vida de cada português é feita de contrastes. Somos capazes da maior discussão que incendeia relacionamentos e do maior perdão que humedece e amacia os corações.
Temos o ditado de que em tantas situações não vale a pena “chover no molhado”. Aquilo que estamos a assistir é o efeito deste chover no molhado que amolece a terra e a converte em rio lamacento que move a terra para onde a gravidade quiser. O terreno altera a sua forma e os tesouros porventura escondidos por debaixo de séculos de terra retornam à superfície.
A vida existe quando algo se move. Existem movimentos exteriores evidentes, mas também interiores que permanecem escondidos. Cada crise choca-nos com o drama, mas apresenta-nos também uma oportunidade. Hoje vemos a lama derramada, mas amanhã veremos a relva e as flores.
É difícil compreender agora os sinais de esperança no meio da destruição. Afecta-nos mais aquilo que perdemos, do que a promessa que tanta água contém e que se verá somente mais tarde. Mas não é o ser humano uma espécie-de-esperança que habita o planeta?
Tudo tem o seu tempo e a bonança virá. Demasiada água hoje para que superabunde a vida amanhã. Demasiada água hoje destrói o que se construiu, mas quanta vida entre nós gerou quando procurámos ajudar o conhecido e o desconhecido com o pouco que tínhamos e que, partilhado, enche para além da boca, o coração. Demasiada água que provém de um céu nublado, esconde a luz que do outro lado continua a iluminar e a oferecer a promessa de vida nova.
Mantém a mente ciente da fragilidade revelada por demasiada água, mas coloca o coração na paz futura e beleza que demasiada água trará. Se hoje choramos juntos porque a Terra fartou-se de chorar, amanhã riremos juntos porque detrás das nuvens está o (agora) esquecido calor do Sol.