Quando vemos as trapalhadas impensáveis que existem actualmente, sobretudo com Trump, questiono: o que pode o pobre coitado como eu ou o leitor fazer? Somos uma minúscula parte da nossa comunidade e sociedade que afecta o ambiente ao seu redor — família, trabalho, vila ou cidade — mas com a sensação de isso produzir pouco impacto no cenário internacional. Felizmente, estaríamos redondamente enganados. Um pequeno acto pode ter um grande impacto.
Toda a acção, ínfima ou incomensurável, afecta os relacionamentos entre as coisas. Não é difícil imaginar como tudo no mundo esteja relacionado com tudo. Ao nosso nível, aquele do pequeno mundo à nossa volta, as acções que realizamos parecem ficar circunscritas a um pequeno raio, isoladas, mas a verdade é que nenhum de nós tem qualquer noção do impacte da mais pequena acção.
A 27 de Outubro de 1962, no auge da Crise dos Mísseis de Cuba, o submarino soviético B-59 estava submerso e sob enorme pressão: calor, falhas de comunicação com Moscovo, e cargas de profundidade lançadas por navios norte-americanos para o forçar a emergir. Dentro desse contexto, dois oficiais superiores orientavam-se para a possibilidade de lançarem um torpedo nuclear. A decisão exigia o acordo de três oficiais. Vasili Arkhipov recusou dar o assentimento e insistiu em emergir e reavaliar. Esse “não”, num espaço fechado e num momento de ruído e medo, é hoje descrito como um travão plausível para uma escalada catastrófica. Mas isto não acontece apenas nos cenários geo-políticos internacionais mais evidentes.
Em 25 de Dezembro de 2021, numa viagem normal de metro em Nova Iorque, uma jovem mulher (Neena Roe) reparou numa carteira deixada num assento. A acção “normal” seria entregá-la a um posto policial ou ao perdidos-e-achados. Mas ela imaginou o transtorno prático para a dona (documentos, cartões, substituições, semanas de burocracia) e tomou uma decisão pequena, mas diferente: procurou a proprietária por conta própria, usando a identificação dentro da carteira e as redes sociais, e combinou entregá-la pessoalmente. 
A dona — Carol, já idosa (a
Newsweekrefere 87 anos) — ficou tão marcada com o gesto que não quis que aquilo ficasse só por um “obrigada e adeus”. Convidou a Neena a manterem contacto (“se estiveres pelo bairro, passa por cá”), e a coisa foi acontecendo como as coisas acontecem na vida real: um chá, depois conversas, depois refeições, depois visitas, e uma relação que, com o tempo, se tornou uma amizade profunda e intergeracional. 
Anos mais tarde, quando a Neena partilhou a história num vídeo, isso teve ainda outro “ramo” de consequências: milhares (ou milhões, segundo a repercussão) de pessoas viram ali uma prova concreta de que um gesto mínimo pode criar um mundo diferente — não por magia, mas porque reorienta relações, expectativas e o coração humano para a força que provém da unidade entre as pessoas.
O que cada um pode fazer à sua volta parece ter pouca importância no contexto global, mas segundo a teoria do caos, uma pequena alteração das condições iniciais pode gerar um encadeamento tal de eventos que desemboca numa consequência com repercussões globais.
Cada pequeno acto de amor poderá ser aquela alteração nas condições iniciais que um dia poderá ter um impacto global. E parece-me que, quantos mais pequenos actos de amor realizarmos ao longo do dia, maior será a probabilidade de produzir, com um pequeno acto, um grande e global impacto.