No final de uma
entrevista a J.R.R. Tolkien, escritor do mundo imaginário que lemos em "O Senhor do Anéis", o jornalista Bowen pergunta se ele preferia ser recordado como o homem que
fez alguma coisa, ou o homem que
disse alguma coisa. Tolkien faz uma pequena pausa e responde que não podemos separar os dois actos porque —
«A coisa "feita", a não ser que "diga" alguma coisa, não será lembrada.» Fazer e dizer deviam ser um só.
O que me toca mais quando escuto o Evangelho na Eucaristia é a sintonia entre o dizer e o fazer de Jesus. O drama de cada um de nós que procura ser uma pessoa de bem é o mesmo: não dizer sem fazer, nem fazer sem dizer. No primeiro gesto damos testemunho e no segundo gesto somos transparentes, sem agenda oculta.
A coerência entre dizer e fazer é o que sinto estar em jogo nas Eleições à Presidência da República do nosso querido e amado Portugal, que não é meramente um lugar ou um momento da história do mundo, mas uma comunidade de pessoas de coração e braços abertos aos outros, dando testemunho ao mundo do estilo transparente e acolhedor de ser português. Não é habitual naquilo que escrevo ser explícito a alguém por estar convicto de que cada pessoa deve sentir-se livre de expressar o que pensa, sente e vive, mas o candidato presidencial André Ventura tem dissociado o fazer do dizer.
Logo no início de uma
entrevista a jornalistas, Ventura foi confrontado com ter dito que Deus lhe confiou a missão de mudar Portugal, justificando isso com o que considera o milagre da ascensão política do Chega no cenário político português. Porém, há muito que se
sabe ter sido à custa da manipulação das consciências usando as redes sociais, espalhando a mentira. Quando confrontado com isso por parte da Renanscença, ou o Público, o Chega disse que iria retirar as mensagens enganosas das redes sociais e não retirou, dissociando o dizer do fazer.
Ao afirmar querer devolver a Portugal os “valores cristãos”, André Ventura convoca uma matriz espiritual que, na tradição católica, se liga à dignidade humana, à fraternidade e ao acolhimento do estrangeiro. Bastaria pensar na Parábola do Bom Samaritano. Porém, esse discurso entra em tensão com as posições que tem assumido no campo da imigração, marcadas por propostas de forte restrição e por uma leitura sobretudo securitária do fenómeno migratório. Segundo a doutrina social da Igreja, o estrangeiro não é apenas um problema político, mas um apelo moral concreto. Uma pessoa que ama e pensa, como qualquer português. Por isso, quando a invocação dos valores cristãos não encontra expressão coerente na prática política, torna-se visível a dissociação entre o dizer e o fazer.
Um voto livre e autêntico implica a consciência do valor grande que tem a ligação entre o fazer e o dizer. Cada um de nós é livre de votar em quem achar que deve servir o país como Presidente da República, mas todos precisamos de uma bússola que nos ajude a orientar as nossas escolhas. Parece-me que a coerência entre o fazer e o dizer seja uma boa bússola.
Pode acontecer que a pessoa do André Ventura esteja a viver a experiência de S. Paulo quando escreveu — «Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse é que pratico.» (Rm 7, 19) — Por isso, não votar nele poderia ser uma forma de o ajudar a sair desse drama da fragilidade humana, e dar um sinal fraterno de que se usasse a retórica para uma maior consonância entre fazer e dizer, talvez assim conseguisse cumprir a missão que sente ter-lhe sido confiada por Deus de mudar Portugal.