Contemplar é deixar-se contemplar

Crónicas 26 fevereiro 2026  •  Tempo de Leitura: 5

Não é propriamente olhar, sem pensar, ou pensar em coisas profundas enquanto se olha. Em "Novas Sementes de Contemplação", Thomas Merton diz — «Não somos nós os que escolhemos o nosso despertar: é Deus quem decide acordar-nos.» — E foi esta frase que me levou a pensar que contemplar é deixar-se contemplar.
 
 
Habitualmente pensamos que contemplar é um acto feito a partir de nós. E se fosse antes o contrário? Ao nos esvaziarmos de nós mesmos, estamos a abrir espaço para que Deus nos desperte para a verdade que realmente somos. Deixar-se contemplar não é pensar algo como — "olhem para mim que vale a pena", mas será antes saber-se transparente ao olhar de Deus que nos contempla sempre.
 
 
Quando era adolescente e estava numa actividade dos escuteiros a vender uns porta-chaves feitos por nós, uma senhora recusou e eu não gostei por sentir-me, de certo modo, recusado. Recordo que fiz uma cara feia de indignação nas costas da senhora. Momentos depois passa um senhor e o chefe chama-me à parte e diz-me — "Estás a ver aquele senhor?", "Sim." — respondi. — "É o marido daquela senhora a quem fizeste uma careta nas costas." — Morri de vergonha durante toda a missa. Não imaginava que estava a ser observado. De certo modo, deixei-me contemplar por ser verdadeiro naquilo que (injustamente) estava a sentir, não tendo ajustado o meu comportamento, uma vez que não sabia que era observado.
 
 
Quando sou observado, posso não ter consciência disso, mas melhor seria se me deixasse contemplar, estando plenamente ciente disso. Quando sou observado, como em sessões Zoom, ou numa palestra, ou a cantar um salmo, preocupo-me com o modo como estou porque ninguém é imune ao pensamento daquilo que os outros pensam de nós. Ou seja, na prática, olho para fora ciente dos olhares voltados para mim e ajusto o meu comportamento, deixando de ser eu mesmo. Todos temos a experiência de sermos alguém em casa, que não somos capazes de ser fora de casa. Por isso, quando estou ciente de ser observado, não me deixo contemplar a partir desse momento. Quero com isso dizer que a consciência de ser observado não é a mesma de deixar-se contemplar. Para compreender isto encontrei uma outra frase de Thomas Merton.
«O contemplativo experimenta a angústia de reconhecer que já não sabe quem é Deus.» — Por que razão ajuda esta frase a compreender a diferença entre ser observado e deixar-se contemplar? Estar ciente de nos deixarmos contemplar é deixar que Deus desperte em nós aquilo que Ele quiser. Ao contemplar, deixamos de saber quem é Deus, para que o nosso conhecimento, ou até a sabedoria que pensamos possuir, não nos aprisione e impeça de acolher aquilo que Ele nos quiser dar a conhecer ou saber enquanto contemplamos.
 
 
A azáfama da vida que vivemos à velocidade do clique, ou do deslizar do dedo pelo ecrã, consome muita da disposição interior para contemplar neste sentido de deixar-se contemplar. Fazer alguma coisa por isso poderá passar por aprender a fazer silêncio exterior, interior e, sobretudo, silêncio no olhar.
 
 
Parece uma mistura esquisita, pois, como pode o som afectar a visão e vice-versa? O silêncio não é a ausência de som, mas de tudo o que nos distrai. E as distracções podem ser tanto sonoras como visuais. Quando temos a oportunidade de contemplar Jesus na hóstia consagrada, um pôr-do-sol, a multidão que se move, o borrão no chão dos Metro, apesar das diferenças em profundidade do grau de contemplação que cada exemplo proporciona, quem presta atenção, sem pensar em si, ou mesmo em nada, poderá começar a contemplar, deixando-se contemplar. Quem sabe qual a centelha que Deus colocará no coração para que algo mude em nós e possamos sentir com mais intensidade a Sua proximidade.
 

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Aprende quando ensina na Universidade de Coimbra. Procurou aprender a saber aprender qualquer coisa quando fez o Doutoramento em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico. É membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado é Tempo 3.0 - Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo e em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.
 
 
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