Sobre a minha mão pousava um insecto. Desconheçia a espécie. Era pequeno e frágil. Podia esmagá-lo, mas deixei que passeasse pelo meu dedo enquanto caminhava para a janela. Soprei para que voasse e fosse livre.
Uma aranha parecia suspensa em pleno ar. Um ténue fio prendia a aranha ao tecto da cozinha. Seria de a esmagar? Prevendo onde pudesse estar, com a minha mão tomo aquele invisível fio que segura a pequena aranha. Levo-a para a janela e desejo-lhe a maior felicidade no ambiente natural.
A semana Laudato Si’ não acontece uma vez por ano, mas nos mais pequenos e singelos episódios da nossa vida quando lidamos com outros seres e com a flora. Não existe apenas o irmão Sol, ou a irmã Lua, mas também a mana aranha.
A nossa casa é um abrigo seguro, mas também acabou por nos isolar um pouco do mundo exterior. Durante séculos mantemos a natureza fora de casa, e quando entra, admitimos a sua presença se estiver sob o nosso controlo, ou eliminamos se tiver entrado sem a nossa permissão. O problema não é a nossa casa, mas o facto de vivermos vidas fechados em casa, por muito boa que seja a nossa justificação. Contra mim escrevo.
Que razões temos para sair de casa, sem que haja qualquer utilidade nisso? Um pequeno passeio por um jardim pode ser mais do que um contacto com a natureza. Pode tornar-se num momento a dois com Deus. No silêncio permeado de sons naturais, criamos espaço de escuta e disposição interior para que Deus possa entrar num diálogo silencioso connosco.
Dada a minha natureza racional, tive sempre dificuldade em compreender como dialogar com Deus no silêncio. A maior parte das vezes que me predisponho a isso, nem sei se estou ou não a dialogar com Deus. Os pensamentos que passam pela cabeça vêm de onde e por que motivo? Talvez a melhor forma de dialogar com Deus seja não ter pensamentos. Talvez seja um simples estar, livre e desapegado das preocupações, desfrutando da vida e respiro daquele momento presente.
A experiência de vida humana tem-se virtualizado muito nas últimas décadas. Dos ecrãs saturados de cores provém o fluxo de imagens e conteúdos que desperta a atenção e o sonho. Desde que haja electricidade, podemos estar ininterruptamente ligados ao dinamismo virtual que estimula a nossa imaginação. Mais uma razão para nos afastarmos da criação. Precisamos de voltar a reencontrar o natural.
Se não conseguirmos sair de casa, ao menos que pratiquemos, por um tempo, a Arte de Olhar à Janela. Quem sabe se a vida que entra pelo olhar poderá chegar ao coração da nossa vontade e despertar em nós o desejo de dar o primeiro passo no caminho de reencontro com o mundo natural. Do exterior, a natureza pacientemente aguarda pela nossa presença. Mesmo sem saber, toda a vida dada a contemplar esconde uma Presença que não se restringe ao altar das Igrejas, mas aguarda por nós no Altar do Mundo.