Espírito Inventivo

Crónicas 10 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 3

O espírito humano é inventivo no sentido de encontrar formas originais de compreender o mundo que ajudam muitos outros a compreender também. Com a inteligência artificial, qual o futuro do espírito inventivo humano?
 
Depende de nós.
Antes de a inteligência artificial atingir o impacto que tem hoje nas nossas vidas, devo reconhecer que muito do nosso pensamento se estava a orientar para lidar com pequenas e aborrecidas tarefas que consumiam muito da nossa atenção, sem impacto profundo na compreensão de nós mesmos e do sentido da nossa existência. Por exemplo, tarefas como responder a e-mails, ou consumir conteúdo nos feeds das redes sociais. Curiosamente, o mesmo efeito não se obtém quando estendemos a roupa porque esses momentos podem tornar-se de solitude, isto é, de encontro com os nossos pensamentos. Uma das promessas da inteligência artificial é a de aliviar o tempo ocupado por essas tarefas, de modo a termos mais tempo para sermos inventivos. É o que está a acontecer? Eu achava que sim até dia 8 de setembro de 2026.
 
A OpenAI, empresa que criou o ChatGPT, pôs 10 000 agentes a falar entre si e, após 88h e centenas de milhares de milhões de tokens gastos, afirma ter apresentado uma solução para um dos problemas do Milénio relacionado com a mecânica de fluidos. Divulgaram num documento de 166 páginas como lá chegaram, e disponibilizaram vários materiais para nós, humanos, verificarmos se a solução está bem ou não. Quer isso dizer que a inteligência artificial não faz de nós melhores inventores, mas gradualmente nos torna verificadores? Nem isso, a OpenAI usou o GPT-6 Astra para verificar o trabalho.
 
E quando houver robótica suficientemente avançada que permita implementar soluções para problemas, que funcionam, mas cuja compreensão humana levaria algum tempo a verificar, o que resta ao ser humano para inventar?
O medo de nos tornarmos menos inventivos pode ter mais a ver com uma visão utilitarista dominante das coisas. Talvez se orientássemos essa visão para a essência das coisas, em vez da sua utilidade, poderíamos descobrir como o saber aprender a pensar com gosto é a génese do nosso espírito inventivo.
 
Reparem que não foi a inteligência artificial que inventou o problema, fomos nós. E até pode chegar à solução que agora temos de verificar, mas quem aspira a saber aprender a pensar com gosto vê nesta “verificação” uma oportunidade para isso. E quem sabe se, ao verificar, não surgirão na mente ideias novas a inventar.
 
A minha primeira reação foi de preocupação, mas enquanto serenamente escrevia esta opinião, apercebi-me de como tudo pode depender da nossa disposição interior para pensar com gosto nas coisas profundas. Na verdade, da inteligência artificial a este nível não recebi mais um e-mail ou entretenimento fútil, mas uma oportunidade para pensar.
O futuro do espírito inventivo humano está ainda aberto. Também esse depende daquilo que inventarmos pelo caminho.
 

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Aprende quando ensina na Universidade de Coimbra. Procurou aprender a saber aprender qualquer coisa quando fez o Doutoramento em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico. É membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado é Tempo 3.0 - Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo e em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.
 
 
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