A negação da morte
A quantidade de funerais que são acompanhados por voluntários da Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa (IMSRL), choca-me. Desde que o projeto foi criado em 2004, até outubro de 2025, foram 2941 funerais. Horrível!
Li algures esta frase: «O homem contemporâneo sente-se senhor da sua própria existência, arquitecto da vida e da morte, de que dispõe livremente».
A vida, a existência já não é acolhida como uma dádiva de Deus. Os sinais que recordam esta presença divina desde o nascimento até à morte, são negados e excluídos. Os acontecimentos carregados de Mistério, como a chegada à vida e a despedida, são despojados deste carácter divino que tem a marca da eternidade.
A aversão à celebração de batismos, casamentos e funerais é disso uma clara demonstração.
Se é extremamente triste que a família daquelas pessoas se afastem num momento tão fundamental como a partida para a eternidade, será igualmente triste que a comunidade cristã não seja capaz de apresentar os seus ao Pai da Misericórdia. Por isso, reconheço na IMSRL o trabalho precioso de todos aqueles voluntários.
É evidente que, quando se perde o horizonte da vida crente, também perdem o sentido todas as realidades que a reconhecem e que são expressão da fé de um povo, como os ritos e as celebrações.
Quando a morte é rejeitada como parte e plenitude da existência, só nos resta distanciarmo-nos dela e temê-la. A sociedade adota todas as atitudes que a negam e reprimem, ao ponto de não se falar dela, de proibir as crianças de visitarem os falecidos…
A morte, ou melhor, o acto de morrer, continua a ser uma tragédia para todos, mas o crente sabe que é uma passagem, o início da vida em Deus.
Ela expõe a omnipotência do homem, revelando todas as suas limitações e colocando-o perante o desafio da fé e dos valores que moldaram e deram sentido à sua existência.
Precisamos de saber para quem vivemos e para quem morremos, porque há uma vida que é a fonte da morte e uma morte da qual flui a vida: a Páscoa de Cristo!
Continuemos a fazer as nossas orações por todos os nossos irmãos falecidos, mas sobretudo por aquela parte da humanidade que rejeita e exorciza a morte, para que possa experimentar o encontro com o Deus vivo, que reconciliou o mundo com a sua cruz, abrindo-o à esperança da vida que nunca terá fim.