"Não tenhais medo. Eu venci o mundo"
Depois dos dias de Halloween, de Todos os Santos e Fiéis Defuntos, de que temos medo? A cultura atual fomenta o medo. Como é que nós, cristãos, lidamos com isso?
O medo é das experiências humanas mais profundas. Surge quando nos deparamos com o estranho, o diferente, com uma ameaça que percecionamos como maior do que a nossa coragem. É algo que ameaça tirar-nos um ente querido, a nossa segurança ou a nossa vida. É uma reação defensiva, enraizada na nossa própria natureza: coloca-nos em alerta, convida-nos a proteger-nos, a procurar proteção. Sem medo, sobreviveríamos?
Mas hoje, não é difícil perceber que vivemos numa cultura que não só conhece o medo, como o produz, o alimenta e, muitas vezes, o vende. O mundo dos negócios, da economia, da riqueza sabe bem que um consumidor com medo tem maior probabilidade de comprar proteção, segurança, cuidados de saúde, seguros…
A política está igualmente consciente do poder daqueles que conseguem identificar um inimigo e apresentar-se como os únicos capazes de nos defender. Até os meios de comunicação, descobriram que a ameaça atrai mais a atenção do que a esperança e que o alarme social vende. Em suma, o medo tornou-se um recurso económico, político e social.
O problema é que a fé também pode cair nesta armadilha. No passado, as pessoas falavam de Deus explorando o medo do inferno, do castigo, do fim do mundo, da salvação. Hoje, podemos tentar ganhar adeptos para a fé mostrando o quão ameaçador é o mundo, o quão perigoso é viver sem Deus. Mas isso significa transformar a fé num mecanismo de segurança e Deus numa garantia contra as nossas inseguranças. É uma forma de usar Deus, não de servi-Lo. Quem procura Deus como guarda-costas é porque ainda não O encontrou como confidente.
O cristianismo não promete o fim do medo. Não promete uma vida sem riscos, doenças, fracassos e morte. Jesus, no Jardim da Oliveiras, não escondeu a sua angústia diante da paixão.
A ressurreição de Cristo também não é uma promessa de imunidade ao sofrimento, mas a revelação de que a morte já não é o fim. Deus passou pela morte e venceu-a.
O resultado da fé não torna os cristãos mais corajosos do que os outros. Não os afasta dos perigos. Os cristãossabem que a sua vida não depende da sua própria capacidade de a preservar. Sabem apenas que estão protegidos por um amor maior do que a sua própria fragilidade.
Aqueles que vivem dominados pelo medo acabam facilmente por ver os outros como uma ameaça, os pobres como um fardo.
Vencer o medo significa: continuar a encontrar-se com os outros; cuidar dos doentes e dos pobres; manter a verdade mesmo quando não gera consenso; acolher sem saber o que se ganha com isso.
Creio que seja este o testemunho que o mundo mais precisa dos cristãos: não, que não tenham medo, mas, que não sejam prisioneiros dele.