Entre reencarnação e a ressurreição

Crónicas 17 setembro 2026  •  Tempo de Leitura: 2

Fui visitar um doente do meu hospital, internado noutro hospital,
um desses lugares onde a dor se veste de bata e o tempo tem cheiro a desinfetante.


Levei comigo o silêncio e a escuta,
e um nome: o do homem que me esperava.
Dissera que precisava de mim,
da minha presença,
da minha fé,
daquelas coisas que não cabem numa receita médica, mas que às vezes sustentam mais do que um soro.


Na recepção, sorri e disse quem era:
- Sou Assistente Espiritual Hospitalar. Vim por um pedido dele.

 


Só isso.
Só isso… e tudo isso.


A senhora, solícita e atenta, preencheu um papel, carimbou o acesso, e antes de mo entregar, hesitou.


Posso perguntar-lhe uma coisa?

Assenti com o olhar.

- Acredita na reencarnação?

A pergunta ficou suspensa, como se alguém estivesse a abrir uma janela para ver se entra ar ou luz.

Eu Respirei fundo.
Não propriamente porque me assaltasse alguma dúvida sobre aquilo em que acredito, mas por respeito àquela pergunta.



— Não! Acredito na Ressurreição!

Ela sorriu e anuiu,
como quem acolhe uma resposta vinda de um outro lugar.

Segui pelo corredor, entre ecos de passos e de monitores, com aquela pergunta a ecoar-me por dentro,
não como um desafio,
mas como uma ponte.

A reencarnação repete,
a ressurreição transforma.

A reencarnação é ciclo,
a ressurreição é novidade.

A reencarnação é retorno,
a ressurreição é promessa.

A reencarnação tenta salvar pela volta,
a ressurreição salva pelo dom.

Quantos procuram sentido num mundo onde tudo parece acabar?

Quantos desejam outra oportunidade, não porque crêem no eterno, mas porque não suportam o fim?

A mulher da recepção não sabia, mas a sua pergunta abriu-me uma oração.

Ali, no hospital onde não trabalho,
fui lembrado do que carrego:
não uma doutrina apenas, mas uma esperança que não morre.

A esperança de que a vida não se repete. Transfigura-se.
A esperança de que o último sopro não é o fim, mas o início de um outro respirar,
sem dor,
sem lágrimas,
sem corredores.

A esperança de que, um dia, nos levantaremos, não para voltar ao que fomos,
mas para sermos enfim, em plenitude, o que Deus sonhou.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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