O grito do silêncio
Dirigia-me para o meu gabinete quando vi, à distância, um homem a caminhar lentamente, como se arrastasse os pés num chão que já não reconhece.
Trazia o rosto sulcado em lágrimas, e o corpo curvado como se carregasse o peso de um mundo inteiro.
Reconheci-o de imediato. Era o pai de um jovem que acabara de ser internado no hospital, o único filho do casal.
Conversara comigo dias antes, de forma absolutamente casual, quando o viera trazer à consulta de psiquiatria.
Agora era diferente. Trazia-o para ficar.
A mãe, vencida pela dor de imaginar o filho dentro das paredes de um hospital, não tivera forças para vir agora trazê-lo ao internamento. Restava ali o pai, sozinho, entregue a uma dor que lhe atravessava o coração.
Assim que me viu ergueu os olhos vermelhos e, num misto de raiva e tristeza, disse-me:
- Isto é uma injustiça. É o meu único filho… O único que Deus nos deu… e agora está ali dentro, fechado, por uma doença que nem eu consigo compreender. Eu queria gritar, queria rasgar este silêncio. Mas não tenho onde… E perdi a fé. Sinto-me enganado por Deus.
Não tentei responder. As suas palavras eram como pedras atiradas ao céu. Senti nelas o eco de muitos outros pais e de muitas outras mães que, diante da dor, viam a fé vacilar.
Coloquei a mão no seu ombro e disse-lhe:
- Venha comigo.
Conduzi-o até à capela do hospital. O espaço estava vazio, envolto numa penumbra serena. As velas ardiam diante do sacrário, e o silêncio era tão profundo que parecia conter todas as lágrimas do mundo.
Parámos no meio da nave. Voltei-me para ele e disse-lhe:
- Aqui pode gritar à vontade. Grite toda a sua dor, a sua revolta, o seu silêncio pesado. Aqui não precisa de calar nada. Se quiser insultar a vida, pode fazê-lo. Se quiser exigir contas a Deus, exija-as. Ele aguenta os nossos gritos. O próprio Cristo, na cruz, também gritou: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”
O homem ficou parado, hesitante. Depois, começou a chorar mais forte. Primeiro em murmúrio, depois em soluços, até que a voz se transformou num grito que ecoou pelas paredes da capela.
- PORQUÊ? PORQUÊ, SENHOR? - gritou em voz bem alta, erguendo os braços. – É O MEU FILHO! ERA O ÚNICO! NÃO ME TIRES A ESPERANÇA!
A voz dele misturava-se com o choro, e parecia que toda a sua vida se derramava naquele instante. Não havia medida nem contenção. Era o grito cru de um pai despojado de tudo.
Permaneci em silêncio, pretendendo respeitar aquele desabafo.
Naquele clamor, não havia blasfémia, mas oração. Era o lamento de um coração humano ferido que, mesmo dizendo ter perdido a fé, ainda tinha a ousadia de se dirigir a Deus.
Quando finalmente se calou, exausto, caiu de joelhos. O silêncio voltou a encher a capela, mas agora era diferente: já não era o silêncio pesado da revolta, era o silêncio fecundo de quem, tendo despejado tudo, podia finalmente descansar.
Aproximei-me, ajoelhei-me ao lado dele e Disse-lhe:
- A fé não se perde quando gritamos contra Deus. A fé perde-se quando deixamos de falar com Ele. E, ainda agora, falou com Deus. Não tenha vergonha do que acabou de fazer. Não creio que Deus se ofenda com o grito de um pai que sofre pelo filho. Às vezes, gritar também é uma maneira de rezar.
O homem olhou-me, com os olhos ainda marejados. Não respondeu. Apenas ficou ali, ajoelhado, como se o peso tivesse diminuído um pouco. Acendeu uma vela, com as mãos a tremer, e colocou-a diante do altar. Depois, levantou-se lentamente e saiu comigo.
Não acrescentei mais nada. Ele seguiu o seu caminho, e eu fiquei a vê-lo desaparecer, carregando ainda o peso da vida... mas, se calhar, também uma chama ténue, frágil, que nem ele sabia se queria ou não guardar.
O hospital voltou ao seu silêncio. O resto ficou por dizer.