Decálogo: As novas fronteiras da missão são humanas e existenciais
O nosso convidado de hoje é um homem cuja vida se escreve, em boa parte, com a palavra missão.
O Padre Nuno Miguel da Silva Rodrigues, Missionário do Espírito Santo (Espiritano), nasceu em Lubango, Angola, a 26 de maio de 1974, regressando ainda criança a Portugal. Entrou, em 1985, no seminário da Congregação dos Missionários do Espírito Santo e realizou a sua formação em diferentes casas espiritanas, antes de estudar Filosofia e Teologia na Universidade Católica Portuguesa. É licenciado em Teologia, tendo dedicado a sua tese precisamente à relação entre comunicação social e evangelização.
Mas a missão não ficou apenas nos livros. Ainda estudante teve uma primeira experiência na Guiné-Bissau e, em 1998, partiu para Cabo Verde, onde realizou o estágio missionário. Foi ali ordenado diácono, em 1999, depois de ter feito a profissão religiosa perpétua. No ano 2000, regressou a Portugal para receber a ordenação sacerdotal, na Diocese de Leiria-Fátima.
Cabo Verde tornar-se-ia uma das geografias fundamentais da sua vida. Ali permaneceu até 2012, conjugando o ministério pastoral com uma intensa intervenção no campo da educação, nomeadamente na Escola Secundária Padre Moniz, e com diversos projetos sociais, paroquiais e de construção e renovação de infraestruturas.
A missão levou-o também a São Tomé e Príncipe, onde trabalhou em projetos pastorais, educativos e sociais. Foi um dos fundadores do projeto de voluntariado “Abraçar a Missão” e, em 2020, participou na criação da Associação Abraçar São Tomé e Príncipe, uma ONGD vocacionada para o apoio àquele país e ao espaço lusófono.
É também autor de vários livros e artigos de opinião e formação, levando para a escrita muitas das experiências acumuladas ao longo do seu percurso missionário.
Hoje, a sua missão atravessa novamente o Atlântico. Depois de experiências nos Estados Unidos, partiu novamente em setembro de 2023, estudou inglês na Universidade Espiritana Duquesne, em Pittsburgh, e foi posteriormente nomeado para o serviço pastoral na Diocese de Providence, em Rhode Island, vivendo na comunidade espiritana de Central Falls.
Uma história que começou também dentro de casa. O próprio Padre Nuno reconhece que a sua vocação não nasceu de uma experiência extraordinária, mas de uma família profundamente marcada pela paixão missionária e, particularmente, pelo testemunho de dois tios sacerdotes e missionários espiritanos.
De Angola a Portugal, de Cabo Verde a São Tomé e Príncipe e agora aos Estados Unidos, o Padre Nuno Rodrigues conhece uma Igreja que muda de língua, cultura e continente, mas que continua desafiada pela mesma pergunta: como anunciar o Evangelho ao homem e à mulher de hoje?
É precisamente sobre vocação, missão, África, emigração, juventude, Igreja, liberdade e futuro que vamos conversar neste Decálogo — Dez palavras, dez perguntas.
Uma vida atravessada por continentes, culturas e diferentes rostos da Igreja. Dez palavras para conhecer não apenas o percurso de um missionário, mas também o seu olhar sobre os desafios da Igreja e da evangelização no nosso tempo.
1. Vocação
Sérgio Carvalho (SC) - Como nasceu a sua vocação missionária espiritana?
Padre Nuno Miguel Rodrigues (NMR) - A minha vocação não nasceu de nenhum milagre ou de uma revelação especial. Nasceu no seio da família por esta ter uma grande paixão missionária, e sobretudo pelo facto de ter no seio familiar dois tios padres que foram grandes missionários da Congregação do Espírito Santo. Os seus exemplos de vida e a sua paixão pela missão me marcaram desde pequenino.
2. Missão
SC - O que significa ser missionário católico hoje?
NMR - Ser missionário é muito maior que ser católico ou um simples cristão. Ser missionário é estar disposto a deixar muita coisa boa para trás, para, com coragem e ousadia, partir para outras latitudes e outros cantos do mundo. É um desafio acrescido que não está ao alcance de todos. Só para alguns corajosos e destemidos.

3. Cabo Verde
SC - Que rosto de Igreja encontrou nas ilhas cabo-verdianas?
NMR - Encontrei, em 1998, um país ainda com imensas dificuldades a vários níveis, mas uma igreja vibrante, cheia de vida e muito jovem. Se na nossa velha europa a igreja parece um funeral contínuo à espera das últimas rezas, em Cabo Verde, a igreja dá cartas em todas as dimensões. É por isso que temos muito a aprender com a igreja africana. Celebrações com multidões e com uma fé alegre, viva e contagiante. Só quem já foi a áfrica é que vai percebendo quanto doente está a nossa igreja na europa. Não há sínodos que lhe valha!
4. São Tomé
SC - O que mais o marcou na missão em São Tomé e Príncipe?
NMR - Outra latitude de áfrica, apenas com duas ilhas, mas com um povo humilde, acolhedor e muito crente. Está claro que é um país muito vulnerável e pessimamente governado, o que acarreta para o povo, imensas dificuldades de plena sobrevivência. Um país com muitas crianças com muita vontade de aprenderem e crescerem na vida. Famílias que necessitam de muito apoio e estímulo para não desanimarem. Uma igreja ainda com muito poucos padres. Necessita de mais e melhores missionários.
5. África
SC - O que a Igreja pode aprender com a fé vivida em África?
NMR - Já respondi acima
6. Emigração
SC - Como vivem a fé os portugueses nos Estados Unidos?
NMR - Todos sabemos que, quando vivemos fora do nosso rectángulo, os laços de união e de vivência da fé são muito maiores. É o que se passa aqui nos EUA com os nossos imensos imigrantes. A igreja e as suas tradições para todos eles são elos, de fortalecimento e de unidade. Não é por acaso que as comunidades portuguesas ainda têm muita gente a participar na igreja. Aqui os problemas são de outra ordem. Não são financeiros nem económicos, mas de apoio espiritual, psicológico e de diálogo e acolhimento.

7. Juventude
SC - Como evangelizar as novas gerações luso-descendentes?
NMR - Aqui está o grande problema. Senão o maior. E tudo porque infelizmente, as novas gerações não querem e tem alguma vergonha em falar a nossa língua. Tristemente, na escola, vão aprender mais rapidamente o espanhol que o português. E quando assim é, tudo é dificultado. Perdem-se muito os vínculos culturais e familiares entre as várias gerações.
Mesmo que celebremos em inglês, a juventude não consegue perceber certas tradições e vivências eclesiais pois ficaram desenraizados. E com isto, muita coisa se vai perdendo. E depois, claro está, esta juventude acaba por tentar fazer coisas para darem continuidade às tradições dos pais e sobretudo avós, mas não entendem do que estão a fazer. E com isto, as coisas vão-se diluindo com a idade dos mais velhos. A célebre questão que os tesouros morrem com os donos. Não são transmitidos.
8. Igreja
SC - Quais são os grandes desafios de ser Igreja nos EUA?
NMR - Quando falamos desafios de ser igreja aqui nos EUA temos de distinguir muito bem, as comunidades imigrantes, e a igreja americana, em si. A comunidade estrangeira tem um grau de participação e vivência muito boa. As comunidades somente americanas, salvo algumas boas excepções, vão definhando e as igrejas vão ficando vazias. Aqui, para espanto de muitos, a coisa mais fácil de fazer, é de fechar igrejas católicas. Não tendo fiéis e não tendo meios financeiros, a ordem é de fechar portas. É triste, mas é a realidade. Impressionou-me, negativamente, quando cheguei, de as Dioceses olharem para as paróquias como empresas lucrativas. Se sim, tem pés para andar, senão toca a fechar. Isto foi muito duro para mim, pois fui nomeado para uma paróquia portuguesa, que já tinha recebido ordens diocesanas para fechar. E passados, já, 6 anos, esta comunidade mantém-se viva e a crescer. O meu antecessor fez um esforço gigante para pagar as dívidas deixadas, e eu agora tenho feito tudo para fazer crescer e animar esta comunidade.

9. Liberdade
SC - Que leitura cristã faz dos 250 anos da independência americana?
NMR - Eu ainda estou há pouco tempo nesta imensa terra. Apenas há 4 anos. Até ainda sou um imigrante ilegal! Até aqui partilho a dor da maioria dos imigrantes que lutam por legalização e não estão a conseguir.
Costumo dizer o seguinte: esta país é capaz do melhor e do pior. É assim mesmo. E isso nota-se no dia a dia das pessoas. E os contrastes são visíveis. Um país de muitas oportunidades, de muitos sonhos e de direitos rapidamente adquiridos. Mas por outro lado, um país de imensas regras a cumprir sem dó nem piedade.
Costumo também dizer a brincar, mas que tem o seu quê de verdadeiro. Este país não precisa de Presidente para funcionar no seu dia a dia. As pessoas, aí na europa, têm um medo e diabolizam o actual Presidente, aqui tudo funciona com mais ou menos resistência às suas políticas. E isto porque já lá vai o tempo em que este grande país teve grandes presidentes. Há mais de 25 anos, como na maioria dos países ditos democráticos, os políticos que chegam a presidentes, venha o diabo e que escolha.

10. Futuro
SC - Onde estão hoje as novas fronteiras da missão?
NMR - As fronteiras já deixaram de ser geográficas para serem mais humanas e existenciais. Em toda a parte do mundo, é assim.
A igreja precisa de saber muito bem ler, interpretar e codificar os novos sinais dos tempos. Para aquilo que vai surgindo de novo e para o qual a Igreja tem de ter respostas adequadas e contextualizadas. Os problemas de hoje não podem continuar a ser resolvidos com soluções do passado. E tristemente, hoje, há muito essa tendência e perigo. Estão a ver o que esses tradicionalistas e saudosistas do passado, a quererem viver o hoje com ritos tridentinos, usando do latim e afins? Isto é uma paranoia por completo. E infelizmente temos muitos padres que passam o tempo a discutir, com unhas e dentes, estas questões de “lana caprina”. Assim, nunca conseguiremos ter uma pastoral de conjunto e uma pastoral com chave evangelizadora e missionária.
Sem esta primícia não adianta avançar para novos campos de missão ou areópagos de evangelização. Para uma nova etapa de missão, os evangelizadores têm de estar convencidos que já não estão a falar para judeus ou circuncisos, mas para o homem contemporâneo que tem uma linguagem e modo de estar completamente diferentes.
Sem isso nada feito.
Notas biográficas
Nome: Nuno Miguel da Silva Rodrigues
Nascimento: 26 de maio de 1974, Lubango, Angola
Congregação: Congregação do Espírito Santo — Missionários Espiritanos
Formação: Licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa
Tese: Os Meios de Comunicação Social ao serviço da Evangelização
Percurso religioso: entrou no seminário espiritano em 1985; realizou o noviciado em 1994; fez a primeira profissão religiosa em 1995 e a profissão perpétua em 1999, em Cabo Verde. Foi ordenado diácono a 4 de julho de 1999 e sacerdote no Ano Jubilar de 2000, na paróquia de Santa Eufémia, Diocese de Leiria-Fátima, por D. Serafim Ferreira e Silva.
Experiência missionária: Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe, Brasil e Estados Unidos, com especial destaque para os longos anos de missão em Cabo Verde e para os projetos pastorais, educativos e sociais em São Tomé e Príncipe.
Educação e ação social: em Cabo Verde exerceu funções de professor, diretor administrativo e responsável pelo Conselho Diretivo da Escola Secundária Padre Moniz, além do trabalho pastoral como vigário paroquial e pároco de São Miguel Arcanjo. Em São Tomé e Príncipe esteve ligado a projetos educativos, sociais e de formação, incluindo o acompanhamento da construção de uma escola com capacidade para 800 alunos.
Associativismo missionário: foi administrador da LIAM, animador missionário, assistente nacional do MOMIP e membro da direção do CEPAC. Cofundou o projeto Abraçar a Missão e participou na criação da Associação Abraçar São Tomé e Príncipe.
Autor: publicou, entre outros, Escola Padre Moniz – 25 anos ao serviço da Educação (2003), Diálogos de um Missionário (2013), O Segredo da Felicidade (2019), Sementes de Missão (2020), Diálogos de um Missionário – De volta a Cabo Verde (2022) e Orações com Sinal + Vitaminas para alimentar o Espírito (2023).
Missão atual indicada na biografia: Estados Unidos da América, no Estado de Rhode Island, integrado na missão espiritana e no serviço pastoral da Diocese de Providence.