Enzo Bianchi: o que significa ser cristão?
Faz hoje 8 dias que morreu Enzo Bianchi. Apesar de pouco noticiado entre nós, vimos partir uma grande homem e um cristão de fibra.
Foi monge cristão, teólogo, escritor e jornalista italiano, conhecido como o fundador e primeiro prior da Comunidade de Bose, uma comunidade monástica ecuménica.
Nascido em 1943 a Castel Boglione, Bianchi abandonou ainda jovem uma possível carreira política e uma vida ligada à Ação Católica para procurar uma forma de vida mais próxima do Evangelho. Passou pela França, onde conviveu com o Abbé Pierre, e estabeleceu uma relação próxima com o irmão Roger Schutz, fundador da Comunidade de Taizé.
Em 1965, iniciou a experiência monástica. Instalou-se em Bose, numa pequena localidade abandonada da Serra de Ivrea. Aí começou a experiência que viria a dar origem à Comunidade de Bose, que reuniu católicos, protestantes e membros de outras tradições cristãs numa vida comum de oração, trabalho, estudo bíblico e acolhimento.
A comunidade cresceu ao longo das décadas seguintes e tornou-se uma referência internacional no diálogo ecuménico e na espiritualidade cristã. Tornou-se conhecida também pela sua produção editorial e pelos encontros sobre Bíblia, espiritualidade e ecumenismo.
O que significa ser cristão? Essa é a pergunta que Enzo nunca deixou de procurar resposta. «Como ainda é possível ter fé na humanidade se a humanidade deu origem a Auschwitz?», perguntou ele certa vez, em voz alta, durante uma viagem a Jerusalém com amigos.
A sua linha de raciocínio conduz-nos diretamente à questão que mais profundamente o inquietava: o que resta do cristianismo quando se retira a segurança de um Deus situado além da vida, separado da história e das inúmeras contradições da existência? Enquanto a crítica ateísta à religião, principalmente a de Freud, a retrata como uma fuga medrosa diante da dureza da realidade, Enzo traz-nos Jesus Cristo para dentro da história pela porta da fé. Se o Verbo entra na carne (encarnou), então a própria carne torna-se o lugar onde a questão de Deus se transforma, inevitavelmente, na questão do homem.
O cristianismo de Enzo Bianchi era um cristianismo imanentista que, de modo algum, excluía a dimensão insondável do mistério. A alteridade de Deus não reside apenas nos céus, mas manifesta-se também na terra. Não está apenas lá no alto, mas também aqui em baixo.
Grande lição nos deu Enzo Bianchi! Não há fé sem obras. Não posso amar Deus se não amo o ser humano, a começar por aquele que encontro no meu dia-a-dia.
Na Comunidade de Bose, o silêncio não é um adorno espiritual. É uma disciplina! Após o toque do sino das oito da noite, os monges retornam às suas celas. Sem televisão, sem computadores. Só a Palavra. Doze horas de solidão até o amanhecer. «O silêncio é o meio de entrar em si mesmo.» E apontou para Jesus como o critério decisivo: «Para nós, cristãos, Jesus explicou e revelou Deus; e não se deve acreditar naquilo que Ele não nos disse a respeito de Deus.»
Descansa em paz, Enzo. Intercede por nós.