É perdido o tempo que o coração não percebe.
A iminência do meu aniversário obriga-me a conversar com o tempo, que eu acredito poder dominar contando as órbitas da Terra à volta do Sol. Para quê? Só para saber o quão perto estou da esperança média de vida, que para os homens portugueses é de 78,99 anos?
Não tenho controlo sobre o tempo, e saber o número de vezes que a Terra deu a volta ao Sol só me ajuda a medir anos de vida, não a vida nos anos. Como se mede esta?
Certa vez, uma professora perguntou a uma criança qual era o melhor caminho entre dois pontos. Enquanto um adulto desenharia uma linha reta de A a B, a criança desenhou uma muito longa e sinuosa. A professora, surpreendida, perguntou-lhe porquê um caminho tão longo, e a criança respondeu: "Porque me pediste o melhor caminho, não o mais rápido. E o melhor caminho é aquele que permite ver mais coisas."
Esta resposta é o grande desafio de cada vivente. Deveríamos tentar substituir a pergunta "O que espero da vida?" por "O que a vida espera de mim?". Passar do controlo do tempo para o amor ao tempo.
Mas como posso descobrir o que a vida espera de mim, neste momento?
Há dias, li um artigo que tinha o seguinte título: "A arte do suficiente”. Em síntese, é um convite a poder ver o que já existe. Nas nossas vidas, o fosso entre o desejo e a realidade tende a aumentar continuamente... Tendemos a querer sempre mais, imaginando que o próximo passo nos completará finalmente. "Suficiente" não é "acontentar-se", mas "ser feliz". Devemos envolver a energia inesgotável do desejo não em metas a atingir, próprios de uma visão consumista, quantificada e linear do tempo (diploma, título, emprego, dinheiro, felicidade...), mas no processo de descoberta de nós mesmos e do mundo que habitamos.
O infinito não se alcança acumulando coisas finitas, mas tornando algo finito infinito: isto é, amando. A arte do suficiente procura a plenitude no momento, até porque o considera como último. Se a felicidade é sempre algo a ser conquistado, porque é isso que o mundo diz, então começamos a querer controlar o tempo, acelerá-lo para atingir um objetivo o mais rápido possível, apenas para descobrir que existe outro, e outro, e outro…
É por isso que a arte do suficiente, proposta por Jesus Cristo quando falou em encontrar o reino dos céus, isto é, a felicidade, é contracorrente: «Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora». Isto é, devemos permanecer acordados para receber o que a vida tem para nos dar agora. A arte do suficiente não apressa o momento porque o verdadeiro ainda não chegou, mas permanece no momento porque ele já contém tudo. Ou seja, devemos gastar a energia do desejo não ao distante, o que ainda não está, mas ao instante, que agora é pleno.
Isto não significa desistir dos objetivos, muito pelo contrário! Significa desfrutar de cada passo do processo em direção a uma meta como se esta já tivesse sido alcançada, como a criança que vai de A a B, onde A e B são meramente os dois limites de um infinito.
Não devo ter pressa em viver muitos anos. Devo aproveitar ao máximo cada instante.
Assim como temos olhos para ver a luz e ouvidos para ouvir os sons, temos um coração para perceber o tempo. E todo o tempo que o coração não percebe, é perdido, desperdiçado...