Amigo, és muito importante para mim!

Crónicas 14 julho 2026  •  Tempo de Leitura: 5

Haverá algo mais importante do que conhecermo-nos a nós próprios? Haverá algo que exija maior atenção? Socorro-me da filosofia para responder a esta questão.

 

Não, não há nada mais importante do que conhecer-se a si próprio! Para a felicidade pessoal, é algo a que nos devemos dedicar de corpo e alma. E se não o fizermos? Montaigne é perspicaz ao lembrar-nos das consequências: «Ninguém fica doente durante muito tempo a não ser por sua própria culpa» (Ensaios). Para ele, o sofrimento prolongado muitas vezes não vem de um vírus ou da dor física em si, mas da nossa resistência em aceitar a realidade. Se o corpo adoece, isso é da natureza. Mas se entramos em desespero e nos tornamos reféns da autocomplacência por meses a fio, estamos a prolongar a doença por própria escolha .

 

Hoje, todos nós culpamos sempre os outros pelos nossos infortúnios, sejam vizinhos ou o Trump. Mas a realidade é que a maioria das coisas que nos afligem e das quais nos queixamos dependem de nós. Nem sempre no sentido de termos o poder de as mudar, mas no sentido de termos o poder de compreender porque nos afligem e, consequentemente, diminuir o nosso sofrimento, ou até mesmo eliminá-lo por completo.

Olhar para dentro exige uma coragem brutal. Significa encarar não apenas as nossas virtudes, mas também as nossas sombras: os medos, as falhas, as incoerências... É muito mais fácil focar no mundo exterior ou julgar o comportamento dos outros do que passar pelo processo do autoconhecimento.

 

Mas o que é que tudo isto tem a ver com amizade? Na realidade, a ligação entre a capacidade de suportar os males inevitáveis ​​da vida, o autoconhecimento e a amizade é muito estreita, e Aristóteles, na obra Magna Moralia, explica perfeitamente porquê. Este  filósofo dá ênfase, em primeiro lugar, à importância e ao prazer do autoconhecimento, dizendo que «conhecer-se a si mesmo é a coisa mais difícil, mas também a mais prazerosa, pois é prazeroso conhecer-se a si mesmo». O prazer aqui não é uma alegria superficial, mas sim liberdade. Quando finalmente entendes porque reages de certa forma, porque tens certos medos ou o que realmente te move, deixas de ser refém das reações primárias. Conhecer-se traz uma sensação de paz. É o fim da guerra contra si mesmo.

 

No entanto, Aristóteles, declara a impossibilidade de se conhecer através do esforço solitário: «Não somos capazes de nos conhecer partindo de nós próprios, e isso é evidente pelo facto de criticarmos os outros sem nos apercebermos de que fazemos o mesmo». A amizade é necessária para nos conhecermos: «Assim como, quando queremos ver o nosso próprio rosto, o vemos num espelho, da mesma forma, quando nos queremos conhecer, podemos conhecer-nos olhando para nós próprios num amigo». De facto, continua o filósofo, um amigo é um alter ego (outro eu), pelo que «não é possível conhecermo-nos sem outro que seja nosso amigo». Olhar para si mesmo e conhecer as próprias virtudes e defeitos é uma tarefa extremamente difícil. Para resolver esse ponto cego, o ser humano precisa de um amigo verdadeiro.

 

Concluindo: para enfrentarmos o mal, precisamos de nos conhecer. Principalmente as nossas fraquezas que é por onde o mal pode chegar ao nosso interior. Para nos conhecermos, porém, precisamos de encontrar um espelho através do qual nos possamos ver internamente. Esse espelho interior, não é físico mas espiritual, é a interioridade de outra pessoa. E não uma pessoa qualquer, mas alguém que está tão próximo de nós que pode ser descrito como um alter ego. Alguém diferente de nós capaz de objetividade, mas ao mesmo tempo muito semelhante. A empatia tem profundidade, visão e generosidade, capaz de ver com o coração.

 

Aproveitemos as férias para estarmos com os verdadeiros amigos. E não nos esqueçamos do Amigo.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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