Para que serve, afinal, a escola?

Crónicas 23 junho 2026  •  Tempo de Leitura: 3

O ano escolar aproxima-se do fim. Estamos em época de exames. Como professor, assaltam-me sempre grandes questões. Há uma pergunta que me acompanha sempre que penso no papel da educação: para que serve, afinal, a escola?

 

Com o tempo, convenci-me de que a sua verdadeira missão não é debitar programas ou preparar os jovens para exames, mas sim ajudá-los a encontrar a sua "chama interior”.

 

Uso a palavra chama no sentido mais profundo do termo: aquele entusiasmo que, na sua génese grega (ἐνθουσιασμός = enthousiasmos), significava "ter um deus interior". É o dom que nos torna únicos, a paixão que alinha a nossa mente, o nosso coração e o nosso corpo. Aquilo que nos faz sentir vivos em plenitude.

 

As disciplinas escolares não deveriam ser caminhos rígidos com um fim em si mesmas, mas sim pavios vocacionais. Estudar literatura, ciências ou história devia ser uma oportunidade para o aluno testar os seus interesses na relação com o mundo, e não apenas um requisito para a universidade ou para o mercado de trabalho.

 

Esta necessidade de repensar o ensino torna-se evidente quando olhamos para as duas realidades que coexistem nas nossas salas de aula: a angústia do futuro e o impacto de um bom mestre.

 

Por um lado, entristece-me ver alunos finalistas a perder o sono com o medo do fracasso e da precariedade, asfixiados por um sistema onde sentem que as notas os definem mais do que as suas capacidades humanas. Por outro lado, inspira-me perceber que, mesmo neste modelo imperfeito, há quem queira regressar à escola do outro lado da carteira, como professor para mudar as coisas por dentro...

 

Olho para o panorama destes dias de Mundial 2026 e pergunto-me: por que é que a sociedade consegue detetar e celebrar o talento no futebol e falha em fazer o mesmo no plano intelectual e artístico dentro das salas de aula?

 

No desporto, nós sabemos como ajudar a amadurecer: o treino é personalizado, o foco está na aptidão natural, e o erro é visto como parte da evolução. Infelizmente, na escola, insistimos num modelo universal e rígido, exigindo que todos os alunos atinjam o mesmo nível nas mesmas áreas, ao mesmo tempo.

 

A verdadeira escola é aquela que oferece a cada jovem as ferramentas e a liberdade para descobrir o seu dom único. Só quando a educação alinhar a competência com a paixão, a vida individual com a comunitária, é que formaremos cidadãos capazes de enfrentar as incertezas do futuro sem perder a sua luz própria.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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