O Campo da Alegria
Ontem, enquanto esperava pela reuniões de preparação do novo ano letivo, dei por mim a observar o campo de futebol da escola que se vê da sala de professores. Passou-me pela memória o meu campo na adolescência. Melhor, os meus campos. No seminário em Fátima, tínhamos o de futebol 11, o de futebol 7,ou tudo à molhada e ainda o ringue em cimento.
Era por ali que passava as tardes da minha adolescência, das 16h30 às 18h00 e, no horário de verão, das 20hs até não se ver uma alma. Um condomínio cheio de amigos, um espaço livre e seguro, uma época feliz. O único perigo eram as horríveis esfoladelas no betão, uma entrada mais dura às canelas... Bastava uma bola, a camisola da equipa favorita comprada na feira, para nos tornarmos heróis como Maradona, Platini, Zico, Rummenigge... Uma aventura diária que canalizava as nossas inesgotáveis energias e transformava o tempo em alegria. Quando volto àquele espaço, como o fiz no passado 25 de abril, ainda encontro esforço, beleza, irmandade, alegria, saudade e gratidão.
Aqueles campos de jogos eram uma escola. O jogo de futebol assemelha-se à vida porque tem regras e limites que nos desafiam. De facto, não há jogo sem campo ou tempo. Um espaço-tempo finito, para além do qual se encontra, como na vida, o fim do tempo e do campo: a partida. E quanto mais restritos forem estes limites, mais habilidoso o jogador precisa de ser.
Para nós, o jogo era o mundo que nos dava forma. Se não tens limites, permaneces sem forma, sem definição. Aqueles campos diziam-nos: “Se aprendes a jogar, então o mundo também poderá ser ordem, amizade, respeito, inteligência, esforço, alegria, erro, luta...”
O futebol, naquela idade, dá-te limites: o retângulo. Aqueles campos continham a geografia e a história do mundo inteiro, o teu destino e o de cada país com a sua bandeira e o seu povo. Hoje, há quase tantos árbitros como jogadores, câmaras, ecrãs, o VAR, na obsessão contemporânea de eliminar o erro com controlo tecnológico...
Adorávamos jogar, e isso bastava. E se não jogávamos com todo o coração, jogávamos com toda a imaginação, ouvindo as partidas em direto na rádio. Hoje em dia, viciados em efeitos especiais, os jogos parecem muito aborrecidos. Assistimos a eles enquanto navegamos compulsivamente nas redes sociais.
Naquele tempo, quando os jogos eram disputados em simultâneo, ouvíamos ou víamos um e depois esperávamos pela transmissão dos golos nos programas desportivos. Era um ritual familiar, coletivo, comunitário. E os rituais, ao estabilizarem o tempo, dão-lhe significado. A alegria da tarde de domingo era concentrada. Hoje, os direitos de transmissão televisiva dispersam a alegria em infinitos prazeres fugazes. Já não é um ritual partilhado. Hoje o tempo não pára, apenas o faz passar.
Nós apenas olhávamos para o campo e, era correr, porque, na sua essência, o futebol é, duas equipas com um único desejo: usar os pés - o único lugar em que "pensar com os pés" é uma arte - em vez das mãos para perseguir uma bola. Isto desperta a criança que há dentro de todos nós, que anseia por correr assim também pela vida.
Quando brinca o jovem trabalha, com a autenticidade do eterno presente, quando o ser e o fazer coincidem, sem preocupações com a carreira, o salário ou os resultados... Há futuro!