La Moreneta de Montserrat

Crónicas 16 junho 2026  •  Tempo de Leitura: 5

Um pequeno apontamento da visita de Leão XIV a Espanha.

 

Cinquenta quilómetros separam Barcelona de Montserrat. O Papa subiu à montanha onde se encontra a abadia que guarda La Moreneta, padroeira da Catalunha. A Senhora Negra, que segundo a lenda foi encontrada numa gruta por algumas crianças, é uma estátua românica da Virgem Maria esculpida em madeira, que fica no alto de uma montanha rochosa. Pelo tom escuro que a madeira adquiriu ao longo dos séculos devido ao fumo das velas e ao verniz, os fiéis começaram a chamá-la carinhosamente em catalão de La Moreneta, ou A Morenita, em português. Atrai peregrinos de todo o mundo há mais de um milénio.

 

Na visita à basílica, Leão XIV explicou que a escolheu «para lhe confiar, cheio de fé na sua intercessão materna, o meu ministério petrino e a missão da Igreja no mundo que clama por justiça e paz». E também para lhe implorar que «nos ajude a revestir-nos unicamente com a armadura de Deus».

 

Não é por acaso que recorda a conversão de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, «que neste lugar evocativo, após uma noite de oração diante da Virgem, entregou a sua armadura de cavaleiro, momento que marcou o início de uma nova vida ao serviço de Cristo».

 

Em 1521, quando ainda era conhecido pelo seu nome de batismo, Íñigo, sofreu um grave ferimento de bala de canhão numa perna durante a defesa de Pamplona. Durante a sua longa e dolorosa recuperação, leu livros religiosos que despertaram o desejo de imitar os santos e seguir uma vida espiritual. Assim que recuperou forças para caminhar, Inácio decidiu fazer uma peregrinação. O seu primeiro grande destino espiritual foi o Santuário de Montserrat, em março de 1522.

 

A passagem de Inácio de Loyola pelo santuário da Morenita ficou marcada por três gestos carregados de simbolismo cavaleiresco e desapego material. A Confissão Geral: Inácio passou três dias a preparar-se e a escrever os seus pecados, fazendo uma longa e profunda confissão com um dos monges do mosteiro para purificar o passado. A Troca de Roupas: Ele tirou as suas vestes nobres de fidalgo e cortesão e deu-as a um homem pobre. Em substituição, vestiu uma túnica austera feita de pano de saco, o traje típico dos peregrinos humildes. A Vigília d’Armas: Como antigo cavaleiro, Inácio adotou a tradição militar da "vigília d’armas". Ele passou toda a noite de 24 de março de 1522 de pé ou de joelhos diante da imagem da Morenita. No altar da Virgem, ele pendurou e abandonou a sua espada e o seu punhal.

 

O significado espiritual deste ato diante da Morenita representou a sua demissão do exército terreno e o alistamento no que ele considerava o exército de Cristo. A espada, que antes servia para procurar a fama e a honra humana, foi entregue à Virgem Maria.

 

Leão XIV sublinhou a importância deste gesto: «Maria conduz-nos a Cristo e ensina-nos a escutar a sua voz», mas também «convida-nos a alcançar um coração reconciliado com os critérios do Evangelho». Porque «Jesus mostra-nos o caminho da misericórdia, da reconciliação, da verdade e da mansidão. Ao mesmo tempo, desmascara a violência que pode estar escondida nas nossas palavras e atitudes: a crítica que humilha, a condenação que destrói e a agressão que divide. Esta violência oculta pode muitas vezes estar revestida de uma aparente armadura com que procuramos proteger as nossas feridas, os nossos medos ou o sofrimento causado pela injustiça». Por isso, o Papa pede-nos que, tal como Inácio, depositemos «aos seus pés a armadura que gradualmente endureceu os nossos corações». 

 

O exemplo de Santo Inácio é muito importante para todos nós, cristãos, peregrinos em busca do sentido da vida, em busca do Senhor. Em Montserrat, depôs as suas armas materiais. Hoje, nós, cristãos, e toda a humanidade somos chamados a depor as armas da guerra, certamente, mas também aquelas armas afiadas como espadas, que são as palavras que causam dano, que criam divisão e ódio entre pessoas e povos. E é dos cristãos que deve vir, hoje mais do que nunca, uma palavra de paz, para que a humanidade aprenda a desarmar não só as palavras, mas também as atitudes e viver uma cultura de encontro que proteja cada ser humano.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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