Somos magníficos!

Crónicas 9 junho 2026  •  Tempo de Leitura: 7

Muito se tem dito e escrito sobre a nova Encíclica do Papa Leão XIV. Para mim, o que ela tem de mais importante é o facto de não ficar por uma premonição do que há-de vir, bom ou mau, mas por focar o que de facto é essencial: o Humanismo.

 

Uma das primeiras características distintivas da Magnifica humanitas (MH) é que, pela primeira vez, a Igreja antecipou a sua reflexão sobre a realidade. A Rerum Novarum surgiu a posteriori, depois de Marx e Engels terem publicado o “Manifesto Comunista” em 1848; depois de John Stuart Mill ter publicado “Sobre a Liberdade”, o manifesto do liberalismo nascente, em 1859; e depois de Charles Dickens, com o seu ensaio “Tempos Difíceis”, ter tornado públicas as consequências socialmente devastadoras da primeira Revolução Industrial. A MH, pelo contrário, age à frente do seu tempo, tocando no que poderá acontecer a toda a humanidade, em diversas frentes - social, económica, política, cultural -, se uma série de questões problemáticas da Inteligência Artificial (IA) não forem resolvidas, desde já.

 

Uma outra característica desta encíclica diz respeito ao estilo expositivo do Papa Leão XIV: claro e de fácil leitura. Mesmo para aqueles que não estão habituados a ler sobre Igreja ou a IA. Esta é uma escolha metodológica que fez o Papa para realçar que as questões abordadas são tão importantes que não devem ser confiadas exclusivamente a especialistas. Porque o que está hoje em discussão é o próprio modelo de civilização a que a humanidade chegou, e não apenas questões específicas ou interesses particulares.

 

Além de tudo isto, o facto de a primeira encíclica deste Papa ser dedicada à IA é um sinal importante: reconhece que esta tecnologia não pertence exclusivamente às grandes empresas digitais, mas tem impacto no emprego, na saúde, na educação, na segurança e no conhecimento. Questiona o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas sem perder de vista a pessoa, os direitos e as responsabilidades das nossas escolhas. A IA não é uma força autónoma. Se por um lado, pode acelerar a descoberta de novos medicamentos, melhorar a saúde, tornar os processos industriais mais eficientes, aumentar a segurança no trabalho e apoiar a investigação científica. Por outro, não tem consciência, não tem intenções. As intenções continuam a ser humanas, assim como as responsabilidades. O problema não é tanto a tecnologia em si, mas sim a forma como os governos, as empresas e restantes organizações optam por desenvolvê-la e utilizá-la.

 

Na MH, a Humanidade é magnífica, entendida seja como a soma de todos os seres humanos seja como o facto de sermos humanos. Humanitas é o termo latino para o grego paideia (os romanos admiravam profundamente a cultura grega e, ao buscarem uma palavra que traduzisse a essência da παιδεία, criaram a Humanitas. Portanto, aquilo de que a humanidade necessita para se tornar plenamente ela própria. O texto identifica a IA como a causa da "mudança de época" que estamos a viver, pois afeta a nossa relação com a realidade como nunca antes. A questão, então, não é tecnológica, mas espiritual: o que nos torna humanos e cria uma civilização mais justa e livre? 

 

Hoje já falamos de um "transumanismo", a religião que inspira projetos e objetos das grandes empresas tecnológicas: capacitar o indivíduo não no Deus do Amor, mas no deus da Máquina. Não é o Amor que move tudo, mas sim o Poder. O ter o domínio total sobre a vida, através de uma mente e de um corpo artificiais. A IA é o deus com quem nos devemos unir, confiando-lhe o julgamento, os corpos, as escolhas, a fragilidade, as relações…

 

Somos seres conscientes, capazes do infinito num mundo de coisas finitas. Somos seres capazes de dar sentido à realidade, de nos dar propósito, de encontrar vida na vida. Somos magníficos! No entanto, esta característica é desprezada por aqueles que pensam que o magnífico não é o homem, mas a máquina. O Papa chama-lhe "síndrome de Babel".

 

Os criadores de IA visam monopolizar o conhecimento e a experiência para os vender e nos guiar: um deus que dá sentido e propósito, poupando-nos ao trabalho doloroso da dúvida, da investigação e da liberdade. Mas a história já mostrou que o homem quando se torna Criador, torna-se Controlador e Explorador, e a guerra começa, uma área em que a IA é utilizada em toda a sua potência. Todo o deus gera seres à sua imagem e semelhança; um deus artificial cria humanos artificiais, aliviados do trabalho árduo do sentido da existência e da liberdade.

 

A IA é o artefacto que, graças ao seu poder, poderá ajudar a resolver muitos problemas, mas também pode iludir-nos, fazendo-nos pensar que não temos limites, que podemos ser salvos sem feridas, como explica a encíclica: 

 

«A nossa relação com a vida hoje parece estar em crise. Tudo o que aparenta ser um «limite» — incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade — tende a ser interpretado sobretudo como um defeito a corrigir, em vez de um lugar onde a humanidade amadurece e se abre às relações. Em vez disso, a humanidade não floresce apesar das limitações, mas muitas vezes através delas. Se, por um lado, é nosso dever procurar eliminar o sofrimento que marca a vida humana, por outro, é sábio reconhecer a nossa finitude constitutiva, sabendo que a experiência religiosa, e em particular a fé cristã, propõe que habitemos, sem simplificações, esta ambivalência entre a grandeza e as limitações da humanidade, interpretando-a à luz da nossa relação original e fundadora com Deus.» (n.º 118)

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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