Os quatro silêncios essenciais

Crónicas 22 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 3

O silêncio é muito mais do que a ausência de som. É essencial à criação de um espaço interior de escuta, verdade e encontro connosco mesmos, com os outros e com Deus.

 

Vale a pena refletir sobre quatro silêncios fundamentais da vida.

 

Em primeiro lugar, o silêncio das palavras excessivas. Falamos demais; falamos antes de olhar, antes de pensar, antes de saber. Muitas vezes, tornamos pequenas as maiores e mais belas obras, apenas porque nos julgamos mais do que somos. Nem sempre dizemos a verdade, e muitas vezes nem sequer há necessidade do que dizemos. Há, talvez, apenas uma ansiedade de preencher o vazio e de evitar o desconforto do olhar dos outros. Mas, para ir ao encontro de alguém, é preciso escutá-lo. E só o escutamos se nos calarmos.

 

Em segundo lugar, o silêncio dos pensamentos dispersos. O pensamento salta sem cessar de preocupação em preocupação, entre memórias, receios, desejos e distrações. Vivemos pouco, de tanto que nos passa pela cabeça a cada momento. Quem é capaz de parar está mais presente e inteiro, menos fragmentado e menos confuso. Quando aquilo que paira dentro de nós assenta, surge uma clareza que traz consigo paz e beleza.

 

Em terceiro lugar, o silêncio de Deus. Pedimos e esperamos respostas sem grande paciência. Julgamos que, se Deus é Deus e nos ama, então tem de nos responder de imediato. Custa-nos aceitar que Ele, de forma muito simples, possa confiar em nós, permanecendo presente na nossa vida, quaisquer que sejam as nossas escolhas. Sentimos a sua ausência porque não O escutamos. Ora, a presença basta, porque todas as grandes obras se fazem em silêncio. Amar é dar-se, sem qualquer necessidade de ruído ou exibição.

 

Por fim, o silêncio do egoísmo, do orgulho e da necessidade de colocar o próprio “eu” no centro de tudo. Há pessoas que não são capazes de se livrar da necessidade constante de afirmação, validação e reconhecimento. Desejam ser vistas e elogiadas a todo o momento. De tanto se admirarem e se defenderem — até mesmo de quem procura o seu bem — nunca saem de si mesmas. E, por isso, nunca chegam a conhecer a beleza imensa do mundo, nem a verdade e o amor que nos chegam através dos outros. O silêncio do egoísmo não significa negar a identidade, mas sim deixar de precisar de provar o nosso valor. É um caminho de humildade e liberdade interior, no qual a pessoa já não vive para ocupar o centro da vida dos outros, mas para encontrar alegria na verdade do dom de ser quem é.

 

A presença, quando é amor, basta.

Artigos de opinião publicados no site da Agência Ecclesia e Rádio Renascença.

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