SALVOS… DE QUÊ?

Crónicas 21 maio 2026  •  Tempo de Leitura: 12

 Encontrei o Guilherme e a Inês no fim da Missa de Páscoa.

 

A igreja estava a esvaziar-se devagar. Havia ainda cânticos soltos no ar, mas ecoavam já misturados com o barulho das conversas.

 

Eles vinham na minha direção.

 

Já não os via há muito tempo.

 

Tinham feito voluntariado no meu hospital, no tempo em que eu assumia funções no campo da Pastoral Juvenil.

 

Lembro-me deles nesse tempo:

jovens disponíveis, 

próximos, 

às vezes sem saber muito bem o que fazer,

mas com uma presença que fazia bem. 

Havia sempre ali qualquer coisa de verdadeiro.

 

“Foi a Inês que me trouxe…” — disse o Guilherme, com um sorriso meio irónico. 

 

Ela não desmentiu.

(Conheceram-se no hospital e acho que agora são namorados).

 

Acresce dizer que não são de Missa ao domingo.

Mas neste domingo vieram.

Fosse por tradição.

Fosse por insistência.

Fosse, talvez, por razões que não sabem bem explicar, mas que não os deixou ficar em casa.

 

Ficámos a conversar com a naturalidade de quem retoma uma história interrompida. Sem formalidades. Como se o tempo, afinal, não tivesse sido assim tanto.

 

Fomos até ao bar. Um café, alguns rostos conhecidos, memórias que voltavam sem esforço.

 

E, a certa altura, a Inês foi direta:

 

— “Posso fazer uma pergunta?”

 

Assenti.

 

— “Os cristãos dizem que Jesus morreu para nos salvar… até o padre disse isso há pouco na Missa. Mas… salvar do quê? E como é que morrer salva alguém?”

 

O Guilherme ficou em silêncio, mas percebeu-se que a pergunta também era dele.

 

E naquele instante pensei em muita coisa ao mesmo tempo.

 

Na catequese que ambos tinham feito.

No Crisma que tinham recebido.

Na boa vontade de tantos catequistas.

E, ao mesmo tempo, na dificuldade real de dizer isto de forma que não fique só na cabeça, mas que toque a vida.

 

Olhei para eles.

 

Não achei que me estivessem a provocar. Achei, antes, que estavam a tentar perceber.

 

— “Vou tentar dizer isto de forma simples… mas completa, ok?”

 

Assentiram.

 

— “Primeiro: salvar de quê?”

 

Parei um pouco.

 

— “Salvar-nos daquilo que nos prende por dentro. Do medo que manda nas nossas escolhas. Da culpa que nos faz acreditar que já não valemos muito. Da forma como, com o tempo, nos vamos fechando… e deixamos de confiar, de amar, de viver com verdade.”

 

O Guilherme acenou:

 

— “Isso… acontece.”

 

— “Pois. E isso é sério. Porque podemos estar vivos por fora… mas meio desligados por dentro.”

 

A Julieta ouviu em silêncio.

 

— “Agora, segunda parte: salvar como?”

 

Respirei fundo. E depois continuei.

 

— “Nós gostaríamos que Deus resolvesse isto de fora. Tipo: tirava o sofrimento, corrigia tudo, punha a vida no lugar...”

 

Olhei para eles.

 

— “Mas Jesus não faz isso. Ele faz o contrário: entra na nossa vida tal como ela é.”

 

— “Mesmo no pior?” — perguntou a Julieta.

 

— “Mesmo no pior. Até ao sofrimento injusto. Até ao abandono. Até à morte.”

 

Silêncio.

 

— “Na cruz, Jesus não está ali só a sofrer. Está a fazer uma coisa muito concreta: está a amar até ao fim.”

 

O Guilherme franziu a testa:

 

— “Mas… isso resolve o quê?”

 

— “Resolve mais do que parece.”

 

Esforcei-me um pouco mais.

 

— “Imagina isto: quando alguém nos falha, ou nos magoa… o mais normal é fecharmo-nos, ou respondermos na mesma moeda.”

 

Eles assentiram.

 

— “Jesus faz o contrário. Mesmo a ser rejeitado, continua a amar. Não entra na lógica da violência, nem do ‘cada um por si’.”

 

Pausa.

 

— “E isso é novo. Porque quebra o ciclo.”

 

A Julieta perguntou:

 

— “Que ciclo?”

 

— “O ciclo do mal que gera mais mal. Da dor que gera mais dor. Da desconfiança que se multiplica.”

 

Silêncio.

 

— “Na cruz, Jesus mostra que esse ciclo pode ser interrompido. Não com força… mas com amor que não recua e é levado até ao fim.”

 

O Guilherme ficou a pensar.

 

— “Então… Ele não vence evitando a morte?

 

— “Não. Ele vence atravessando-a.”

 

Olhei para os dois.

 

— “A ressurreição não é um truque para apagar a cruz. É a prova de que a cruz, o sofrimento, o fracasso, a morte… não têm a última palavra.”

 

A Inês respirou fundo.

 

— “Então salvar é… dar-nos uma saída?”

 

— “Sim. Mas não uma saída fácil. Uma saída por dentro.”

 

Expliquei melhor:

 

— “Salvar é abrir um caminho dentro da própria vida real, com tudo o que ela tem, onde não ficamos presos ao medo, à culpa, ao passado, à dor.”

 

Pausa.

 

— “É cair… e não ficar no chão. É falhar… e não desistir. É sofrer… sem deixar de amar.”

 

O Guilherme olhou para mim:

 

— “Mas isso não é automático, pois não?”

 

— “Não. Deus não faz isso à força.”

 

Olhei para ele com calma:

 

— “Ele abre o caminho. Mas não nos arrasta para ele. Nós temos de o querer percorrer.”

 

A Inês perguntou:

 

— “E como é que isso começa?”

 

— “Começa em coisas simples. Muito simples. Pelo concreto. Sempre.”

 

Pausa.

 

— “Quando escolhes não te fechar, mesmo depois de teres sido magoada.

Quando decides confiar um pouco mais, mesmo com medo.

Quando não deixas que o erro, teu ou dos outros, seja a última palavra.”

 

Silêncio.

 

— “É aí que a salvação começa a acontecer.”

 

O Guilherme ficou quieto.

 

— “Então… não é só uma coisa para depois da morte?”

 

— “Não. Começa agora. Aqui. Na forma como vives.”

 

Pausa.

 

— “A vida eterna não é só uma vida que vem depois. É uma vida nova que começa já, quando deixas de estar preso ao que te fecha.”

 

Ficámos em silêncio uns segundos.

 

O Guilherme acrescentou:

 

— “É estranho… mas ao mesmo tempo parece… real.”

 

Sorri.

 

— “Se não for real, não serve.”

 

O barulho à volta continuava, mas já não nos chegava da mesma maneira.

 

Antes de novas perguntas a Inês disse:

 

— “Nunca tinha pensado na cruz assim…”

 

O Guilherme acrescentou:

 

— “Nem eu. Sempre me pareceu… meio sem sentido.”

 

Olhei para eles.

 

— Se a cruz fizer sempre sentido… talvez ainda não a tenhamos levado a sério.

 

Fiquei com a frase no ar.

 

O Guilherme mexia na chávena vazia, como quem precisa de fazer alguma coisa com as mãos enquanto pensa.

 

A Inês estava mais quieta. Não parecia convencida. Mas também não parecia distante.

 

— “Mas há uma coisa…” — disse ela, devagar. — “Isso tudo que disseste… é bonito. Mas depois a vida real não é assim tão limpa.”

 

O que ela me dizia não era uma objeção teórica. Era uma espécie de teste.

 

— “Pois não.” — respondi.

— “E ainda bem que disseste isso, Inês. Porque se isto só funcionasse em teoria, não servia para nada.”

 

Pausa.

 

— “A questão é outra: quando não fazemos isto… a vida fica melhor?”

 

O Guilherme levantou os olhos.

 

— “Não.”

 

— “Pois. Fica mais dura. Mais fechada. Mais cansada.”

 

Encostei-me ligeiramente para trás.

 

— “A proposta cristã não é: ‘faz isto e vais sentir-te sempre bem’.

É, antes: ‘se não fizeres isto, vais acabar fechado num sítio onde já ninguém entra. Nem tu’.”

 

Silêncio.

 

Aquilo bateu mais do que qualquer explicação anterior.

 

A Inês não respondeu logo. Mas deixou de estar na defensiva.

 

— “Então… a cruz não resolve tudo…”

 

— “Não.”

— “Mas impede que tudo se estrague por dentro.”

 

Ficaram os dois calados.

 

E, pela primeira vez desde que a conversa começou, não estavam à procura de mais explicações.

 

Estavam a medir aquilo na própria vida.

 

Ao longe, alguém chamou por eles. Um dos doentes reconheceu-os.

 

Eles levantaram-se.

 

O Guilherme estendeu-me a mão, mas depois mudou de ideias e deu-me um abraço rápido, meio desajeitado.

 

— “Obrigado… isto ficou aqui a trabalhar.”

 

A Inês sorriu.

 

— “Acho que vou precisar de pensar nisto mais tempo.”

 

— “Ainda bem.” — disse eu. — “Se ficasse resolvido hoje… era mau sinal.”

 

Começaram a afastar-se para ir ao encontro dos doentes e depois seguirem para casa.

 

Em boa verdade, não iam com aquele entusiasmo típico de quem “percebeu tudo”.

Nem com aquele ar de quem ouviu uma coisa bonita e vai esquecer daqui a meia hora.

Iam mais lentos.

Mais atentos.

Como quem já não consegue fingir que não ouviu.

 

Fiquei a vê-los.

 

E pensei que,  no fundo, é isto.

A salvação não começa quando tudo faz sentido.

Começa quando já não conseguimos continuar a viver da mesma maneira, 

e ainda assim… não sabemos bem o que fazer com isso.

Fernando d’Oliveira é assistente espiritual e coordenador hospitalar, mestre em saúde mental, formador social e membro da direção da AsER.

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