O Amor escreve com um Alfabeto diferente…
Com o Domingo de Ramos entramos na Semana Santa, os dias maiores da história e da fé. Recordo com uma certa saudade os meus dias de seminarista. Tinha tempo para o silêncio e a meditação... Porque nesta semana, a liturgia abranda, acompanhando-nos com serenidade, quase hora a hora, pelos últimos dias de Jesus: da entrada em Jerusalém até à corrida de Maria Madalena na manhã de Páscoa.
«Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem para abraçar todas as dificuldades do tempo presente, abandonando por momentos o nosso anseio de omnipotência e de posse para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de inspirar.»
Papa Francisco, sexta-feira, 27 de março de 2020.
O mais belo a fazer nestes dias é permanecer junto da santidade das lágrimas, junto das infinitas cruzes do mundo onde Cristo ainda está crucificado. Os cristãos mantêm-se próximos de Deus no seu sofrimento, já o dizia Dietrich Bonhoeffer, pastor Luterano, teólogo e mártir alemão.
Jesus sobe à cruz para estar connosco e ser como nós. Estar na cruz é o que Deus, no seu amor, “deve” à humanidade crucificada. Pois o amor tem muitas obrigações, mas a primeira é estar com o amado, mantê-lo dentro de si e, depois, conduzi-lo para fora da morte. A cruz é o abismo onde um amor eterno penetra o tempo como fogo e irrompe em chamas.
Só a cruz acaba com toda a dúvida. Qualquer outro gesto teria confirmado uma falsa ideia de Deus. O amor escreve a sua história com o alfabeto das feridas, o único que não engana. Daí a emoção, o deslumbramento.
A Cruz não é o momento de satisfação para um Deus vingativo, mas a sublime revelação da sua justiça, ou seja, a sua vontade de entrar em comunhão total connosco, partilhando a vida humana até ao seu fim. Jesus transforma a cruz, de símbolo da violência humana, num sinal de amor.
O significado mais profundo da Encarnação, Paixão e Morte de Cristo é que Ele assume toda a finitude da criação: as nossas limitações, a nossa angústia, a nossa doença, a nossa morte e também todo o nosso pecado.
Passados dois mil anos, também nós sentimos, como as mulheres, como o centurião, como o bom ladrão, que na Cruz reside a suprema atração de Deus.
Qualquer homem, se pudesse, desceria da cruz. Jesus, não. Um pagão, um centurião perito na morte, foi o primeiro a compreender isto: Este era o filho de Deus.
O que é que ele viu? Aquele homem, perito na morte, testemunhou o mundo a transformar-se. Um mundo onde a vitória pertenceu sempre aos mais fortes, aos mais bem armados, aos mais implacáveis. Viu o poder supremo de Deus, do seu amor desarmado; o poder de servir, não de escravizar. Viu no Gólgota uma outra maneira de ser humano.
Amar, amar até ao fim. A fé cristã assenta num ato perfeito de amor. E na Páscoa, o Ressuscitado assegura-nos que esse amor não se perde.