Eu, Tu... Todos somos Frágeis.

Crónicas 17 março 2026  •  Tempo de Leitura: 3

A Quaresma é o tempo propício para uma aprendizagem sobre a realidade humana: "Tu és pó e ao pó voltarás".

 

Não se trata de algo negativo. Antes pelo contrário! É Tempo de gratidão e de compaixão. Estas não são meros sentimentos, mas duas ações que estão na raiz da felicidade, como uma mão estendida tanto para receber como para dar.

 

Por isso, durante a Quaresma, o jejum é acompanhado pela esmola e pela oração, pois são formas, semelhantes. Visam recuperar a consciência da própria fragilidade e da fragilidade dos outros.

 

«”Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8). Esta é uma afirmação luminosa para as almas grandes, as almas santas; pois, estando mais próximas de Deus, que é o Sol da justiça e santidade imaculada, apercebem-se com mais clareza das imperfeições que as maculam.»

Beato Columba Marmion

 

Aqueles que não reconhecem a sua própria fragilidade esquecem-se de si próprios e dos outros. Aqueles que a reconhecem sabem que vivem e estão gratos por isso.

 

A Quaresma é um tempo poderoso de conversão do coração, da mente e de toda a pessoa, de desprendimento das nossas paixões, de um verdadeiro regresso ao essencial.

 

Rezamos não para convencer Deus a fazer algo, mas para nos convencermos de que somos seus filhos. Uma cultura que não nos incentiva a percebermo-nos como filhos — isto é, recetores da vida, mas apenas seus donos — não fomenta a gratidão e a compaixão, mas antes os seus opostos: o egoísmo e a indiferença.

 

O cristianismo medieval teve a genialidade de procurar detalhar a gratidão e a compaixão em catorze obras-primas, conhecidas como obras de misericórdia, sete corporais e sete espirituais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher o estrangeiro, cuidar dos doentes, visitar os presos, sepultar os mortos; aconselhar os indecisos, instruir os ignorantes, admoestar os que praticam o mal, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência aqueles que nos fazem mal, orar a Deus pelos vivos e pelos mortos.

 

Não se tratam de preceitos, mas sim de uma forma de existência que nasce do sentimento de não sermos donos da nossa própria vida ou da vida dos outros, mas sim os seus cuidadores.

 

Desta forma a caridade deixa de ser um sentimento, um dever ou um incómodo, passando a ser um estilo de vida: Ser Cristão.

Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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